Estraga, conserta e vai

Leila Rodrigues 

Fui alfabetizada no fogão a lenha. É verdade! Conheci as letras em casa, através dos meus irmãos que já estudavam. E o fogão a lenha de cimento vermelho era a minha lousa caseira. Me lembro de quando consegui juntar as sílabas e formar as primeiras palavras. A minha alegria era tamanha que eu queria ler tudo à minha frente. Cresci apaixonada pelos livros. E devo a eles boa parte das minhas conquistas. 

Gosto particularmente das crônicas por proporcionarem uma leitura independente. Tenho aquela mania estranha de gostar de ler uma crônica no início, outra do final e assim por diante. Mas as histórias também me atraem. Já tive a minha fase dos romances, dos poemas, dos clássicos e dos livros de autoajuda corporativos, aqueles que têm a receita certa para você fazer sucesso! 

Porém, de uns tempos para cá, tenho tido dificuldade de ler um livro até o fim.  Já tentei tipos diferentes de livros, tentei mudar os horários da leitura e nada, parece uma praga, um desencanto. Justo eu que costumava ler três livros de uma vez! 

Para minha surpresa descobri um amigo que também está com a mesma dificuldade. Conversamos bastante e, embora ainda estejamos longe da solução, descobrimos juntos que o mundo atual é barulhento demais para a leitura e nossas cabeças estão tão abarrotadas de pensamentos e afazeres que fica difícil colocar uma história a mais no meio de tudo isso. 

Tentei o ebook, foi bom porque não precisei ficar com a luz acesa, mas senti falta do cheiro do livro e de passar as folhas. Tentei também o livro falado, mas enjoei da voz do tradutor e não consegui ouvir mais. Resolvi de outra forma, criei meu ritual de leitura. Está dando certo, quando eu terminar o livro volto para contar.

Faz parte da envelhecência essa dificuldade com coisas que nos eram rotineiras e prazerosas. No meu caso foi o livro, mas sei de amigos que não conseguem mais jogar xadrez, assistir telejornal, vestir roupa social, enfim, cada um vai viver a sua envelhecência do seu jeito. Ainda bem que eu só enjoei de coisas, pior seria se fosse das pessoas! Ainda não cheguei neste estágio e espero não chegar. É preciso ficar atento e não deixar que nossas manias se potencializem. O importante nesta história toda é não se vitimizar. Deu errado? Agarrou a roda da bicicleta? Roda o pedal e começa outra vez! A vida é assim mesmo, estraga, conserta e vai…

leila.palavras@gmail.com

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