Está tudo bem!

 E finalmente o ano começou. E justamente hoje. Explico: no Brasil, tudo começa mesmo é depois do carnaval. Mas, bem depois do que seria o último dia da festa. Isso porque as repartições públicas, como prefeituras e câmaras, se mantiveram com as portas fechadas ontem, enquanto em vários pontos do país, os blocos carnavalescos ainda pulavam que nem pipoca noite adentro nesta Quarta-feira de Cinzas. Sinal de que, para muita gente, incluindo nossos representantes, tudo vai muito bem. Obrigada!  Não tem crise, em Brasília a harmonia reina, Minas Gerais já tem dinheiro para repassar aos prefeitos, enfim...

 Ressaca da consciência

 A realidade vem à tona depois da ressaca. É gente que endividou com o cartão de crédito para curtir a folia, deixou de pagar o IPVA para viajar, brigou com o parceiro para curtir a solteirice, bebeu todas e perdeu os documentos, e por aí vai. O problema é quando a vida volta ao normal. Para uns, a consciência pesada apaga toda a alegria momentânea dos 5, 6 dias de festa. Para outros, a farra é o ano inteiro. Para estes, qualquer semelhança com Brasília, é mera coincidência.

 Direitos? Quais?

 É dever do Estado garantir, aos cidadãos, direitos previstos na Constituição Federal e outras normas. No entanto, é muito bonito e correto, mas somente no papel. A cada ano, muito pior do que o período da escravidão, estas garantias são cerceadas e cassadas. Situação que ilustra bem o tema da Campanha da Fraternidade 2019. “Fraternidade e Políticas Públicas” e o lema “Serás libertado pelo direito e pela justiça” (Is 1,27). Lançada oficialmente nesta Quarta-Feira de Cinzas, visa exatamente chamar atenção para a constante desassistência. Dinheiro para isso tem sempre faltado em um país onde poucos têm muito e a maioria não tem nada.

 A culpa é dos dois

 A campanha promete intensidade no período da Quaresma, quando a Igreja Católica buscará chamar a atenção dos cristãos para o tema e ações e programas que assistam de forma justa os mais necessitados. E vale uma reflexão: a sociedade é um conjunto de forças, como disse muito bem, ontem, o bispo Dom José Carlos. Políticas públicas não vêm só de cima para baixo por meio dos nossos representantes, mas também de baixo para cima. Como isso é possível? Com a participação efetiva da população, fiscalizando e cobrando dos políticos, participando dos processos que constroem a ação e também praticando cidadania. Não pense que se esperar pela boa vontade deles vai chegar algum benefício. Não vai mesmo. É isso que eles querem, ficam à vontade para fazer o que bem entendem. E é isso que vêm fazendo, e a culpa é mais nossa do que deles. Se a sociedade não interfere, a política continuará “podre”.

 Na cara dura

 Não adianta, o mau exemplo vem de baixo, sim, mas os de cima são vergonhosos. Se, para a maioria dos brasileiros, ontem e hoje é dia de voltar ao batente, para deputados e senadores, o retorno às atividades, só na semana que vem. Movimento ontem nas duas maiores Casas Legislativas do Brasil, só das pessoas da limpeza, aliás, essas nunca têm qualquer tipo de privilégio. Da última sexta-feira, quando começou o carnaval, até a próxima terça-feira, quando estão marcadas as sessões deliberativas, serão 12 dias “de recesso”, sem votações. Isso porque a última foi no dia 27 de fevereiro, em uma quarta-feira.  Agora, o eleitor tem o representante que merece ou o político sabe que pode contar com conivência dele?

 Para que pressa, ‘bichinho’?

 A urgência da Reforma da Previdência, assunto da vez, não foi suficiente para que as sessões fossem marcadas ainda para esta semana. Sem elas agendadas, haverá hoje e amanhã só discursos, sem nenhuma deliberação. Isso significa que deputados e senadores que prolongarem a folga não terão qualquer prejuízo. Então, minha gente, não precisa explicar mais nada. Perda no bolso, só do assalariado, inclusive com esta bendita reforma. Os nobres parlamentares continuam livres, leves, soltos, com os bolsos cheios e intocáveis.

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