Esperança e cautela

Editorial 

Quatro meses se passaram e mundo continua enfrentando (do jeito que pode) a covid-19. Fecha tudo, isola todo mundo, arrisca a economia, acompanha de perto mortes, casos aumentando desenfreadamente, leitos de CTI faltando, medicamentos e insumos a conta ou em falta. Há mais de 120 dias o ser humano enfrenta um inimigo invisível e tenta se manter de pé. Tenta sobreviver ao vírus, ao caos instalado, às dúvidas, às incertezas. Período longo em que as pessoas se alegram por ter mais um dia de vida, mais um dia saudável, e esperam ansiosas pelo fim deste pesadelo. Mesmo diante da incerteza do futuro, do amanhã, a população mundial espera ansiosa pela normalidade, por poder respirar o ar livre, por poder tocar, abraçar, beijar, sentir o calor humano mais uma vez. Mesmo diante do caos, o ser humano aguarda a cada dia a notícia “não há mais casos registrados de coronavírus”, ou mesmo: “casos de covid-19 caem pela metade”. 

Fecha tudo, abre tudo, mas com cuidados, recomendações por todos os lados, pesquisas e mais pesquisas, enxurrada de notícias, de informações. Nem bem uma pesquisa foi publicada, uma informação foi dada, vêm novos dados, mas, em meio a tudo isso, há esperança. E talvez ela tenha sido a única coisa capaz de manter o ser humano de pé. O Governo do Estado anunciou ontem que a taxa de contágio da covid em Minas Gerais estabilizou. O que isso significa? Que o índice de transmissão do novo coronavírus  por infectado (RT) no estado, que era 4, em março, hoje varia entre 0,98 e 1,05. Em paralelo a isso, Estados Unidos e Rússia anunciam a eficácia de suas vacinas, que em breve estarão disponíveis para a população (ainda não se sabe qual grupo receberá primeiro e nem quais países). 

E tudo isso é motivo para comemorar? Em partes, sim. Inclusive o passo à frente em Minas, mas há de se ressaltar que cada região tem o seu RT. Divinópolis, por exemplo, registrou mais duas mortes nesta terça-feira, totalizando 22 óbitos. O boletim epidemiológico de ontem apontou que a cidade tem 615 casos confirmados e, destes, 69 pessoas estão internadas, sendo 45 na enfermaria e 24 no CTI. E não é só por aqui que os números ainda amedrontam. Diversas cidades do estado do mesmo porte ou até menores têm registros de casos e mortes bem maiores do que os nossos. Neste quesito, Divinópolis está bem na fita. Porém isso não significa abandonar as recomendações e voltar à normalidade. Estender o horário de funcionamento do comércio não é voltar à normalidade. Isto é apenas uma forma que os governantes têm de tentar manter a cidade funcionando e a economia girando, uma vez que o Brasil não tem políticas assistenciais públicas, uma economia e uma saúde pública fortes, capazes de se sustentarem sozinhas até que tudo isso acabe. Normal, normal mesmo, vai ser o dia em que pessoas pararem de morrer por causa do coronavírus e cessar a disputa por leitos e atendimento médico. 

Até que este sonho vire realidade, caberá ao ser humano se manter dentro do limite da racionalidade, pois ele é o único dono desta história. Para que tudo isso acabe, será necessário ter, em primeiro plano, responsabilidade e disciplina; só depois  esperança. Para encontrar a luz no fim do túnel, será preciso muito mais agir do que falar. 

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