Especial: Divinópolis na visão de quem viveu o passado

Ana Laura Corrêa

Tereza Moreira, de 99 anos, praticamente nasceu com Divinópolis. Seu parto foi feito em casa, uma fazenda “pra lá do cemitério do Centro”, como diz ela mesma, em 15 de outubro de 1918.  

Anos depois, Tereza se mudou com a família — os pais e nove irmãos — para uma casa próxima à Praça do Santuário. O Agora conversou com Tereza, e outros dois idosos, nas Obras Assistenciais Nossa Senhora Aparecida, onde moram atualmente. Hoje, com quase 100 anos, Tereza relembrou sua história e também como era a cidade anos atrás.  

Educação  

— Estudei só o curso primário na escola Padre Matias Lobato, que era na avenida 1º de Junho, onde é hoje a Joaquim Nabuco. A gente tinha uma vasilha, que era uma lata, e levava o material nela. Era mais difícil. Hoje em dia tem muita bolsa. Vinha estudar a pé, pelas estradas de terra. Antigamente, o povo andava muito. Hoje, para andar dois quarteirões, precisam pegar ônibus.  

 Religião  

— Todos os domingos, a gente vinha à missa na Catedral, que se chamava Matriz. Às vezes, também vínhamos na reza e na benção do Santíssimo. Ficava longe demais.  Quando acabava, íamos pela estrada afora. Nessa época, acho que tinha luz apenas no Centro. Então, até chegar à fazenda era escuro, não víamos nada e não encontrávamos com ninguém. Na fazenda, havia várias lamparinas. Onde eu ia, levava uma. 

Saúde  

— Era muito sem recurso.  Quando era necessário, íamos ao farmacêutico Pedro Gontijo. Papai me punha na garupa do cavalo e levava lá. A farmácia ficava na rua São Paulo com avenida Antônio Olímpio. Nessa época, não tinha hospital. O primeiro hospital da cidade funcionava aqui nas Obras e se chamava Nossa Senhora Aparecida, mas não era grande como é hoje e a entrada era para a praça. 

 Diversão  

— A gente brincava muito. À noite, quando chegava visita, achávamos bom porque íamos para o meio do curral fazer roda, brincar de pique de esconder. Hoje é só celular. Na rua, a gente brincava de tudo na frente de casa, de jogar bolinha no chão... O parque e o circo vinham sempre. Às vezes, a gente ia. Eles ficavam na rua São Paulo chegando na avenida 1º de Junho. Tinha um espaço grande e montavam ali. Nós não importávamos muito com divertimento, não. Ficávamos mais em casa. Era raro quando a gente ia ao cinema e teatro.  

 Outras histórias  

Marta Luzia Campos, de 77 anos, veio para Divinópolis em 1979 e relembra as opções de diversão que havia na cidade na época. 

— Meus irmãos já moravam aqui, todos ferroviários. Eles vieram bem antes porque acabou a estrada lá na cidade. Viemos morar no bairro Esplanada. Aqui tinha o Carnaval de rua, eu morava perto de um pessoal que tinha um bloco muito famoso, o “Seu Nonô”. A gente via os ensaios perto de casa. Aqui na cidade, havia ainda quatro cinemas, eu ia muito ao Cine Alhambra e ao Divinópolis. Naquela época, também existia o Mangueiras. Quando eu morava em Belo Horizonte, e meus irmãos já moravam aqui, a gente vinha, às vezes, passar o Carnaval no Mangueiras. Tinha música ao vivo e baile. O tempo mudou para melhor, mas a cidade quase não tem diversão mais. 

Rio Itapecerica  

Décio Silva, de 65 anos, relatou algo inimaginável nos dias de hoje.  

— Eu morava no Porto Velho. Quando criança, nadava o dia inteiro e até bebia água do rio. Na época, a água era limpa, lavavam roupa no Itapecerica. Meu pai me ensinou a nadar com 8 anos mais ou menos e, com uns 10 anos, eu já atravessava o rio. Tinha até correnteza. A gente pegava piabinha, levava para casa, fritava, jogava na gordura quente, punha fubá e torrava. 

 

 

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