Escritor divinopolitano lança livro de aforismos

Da Redação

Na peça teatral "Os rinocerontes", de Eugène Ionesco, escrita no pós-Segunda Guerra Mundial, os habitantes de uma cidade anônima começam de repente a se transformar na grande besta das savanas africanas. Isso por vontade própria. Apenas um casal resiste à tentação de se tornar também dois rinocerontes, podendo ser interpretado como uma espécie de Adão e Eva que garantirão a continuidade da espécie humana. Os outros, que se despersonalizaram, retrocederam à animalidade e à guerra de todos contra todos. 

A peça de Ionesco, que tem sido interpretada como uma alegoria à ascensão do nazismo na Europa, parece retratar, em nosso tempo, o fenômeno da ascensão dos ódios, da vulgaridade e da estupidez na internet, no espaço público e até no governo. A vida de cada um depende de sua visão de mundo. Quando permitimos que memes, chavões políticos, morais, patrióticos ou sexuais determinem a forma como enxergamos as coisas, estamos nos transformando em rinocerontes. Por isso o diálogo, o respeito pela diferença e a resistência crítica são mais que nunca necessários para que nos preservemos de mimetismos redutores. Exorcizar esses mimetismos é justamente o que busca fazer o novo livro do divinopolitano Adriano de Paula Rabelo, "Ouriço: senso incomum" (Editora Aglaia, 152 páginas), uma refinada coleção de aforismos. 

Essa evocação e interpretação sumária da peça de Ionesco pode dar a impressão de que o livro de Rabelo é um trabalho pesado, carregado de filosofia, e uma leitura difícil. Nada mais falso. A começar por sua curta extensão, com espaços em branco para dar ao leitor algum tempo para refletir sobre o que leu em cada aforismo, em geral o tom da obra é leve sem cair na banalidade. Há todo um trabalho com a linguagem, momentos bem-humorados, intertextualidades surpreendentes com outras frases. Trata-se, enfim, de uma leitura instigante, crítica, insolente às vezes, séria sem deixar de ser divertida.

Suas frases compõem pensamentos provocadores que dialogam com sentenças consagradas nas grandes obras da literatura, da filosofia e das humanidades em geral, bem como dos livros sagrados. Isso num plano mais erudito, pois os aforismos ali reunidos também dialogam com a cultura popular na forma dos provérbios, dos ditados, das frases feitas, da publicidade, dos grafites. Com bom humor e uma ironia que às vezes transborda para o sarcasmo, o autor analisa nossos costumes e nossa forma de ver o mundo. Além disso, em diversos momentos ele trata da onda extremista e estupidificante que tomou conta dos meios de comunicação nos últimos anos. Por isso busca enxergar o mundo por outras perspectivas, seriamente, mas sem levar muito a sério a própria seriedade, como recomenda num dos aforismos.

Um dos aspectos mais interessantes do livro é sua busca por uma renovação das expressões gastas e daquilo que todos dizem sem pensar. Ou sua busca por enxergar o mundo por outros pontos de vista. Num tempo em que novamente vieram à tona extremismos políticos e ataques aos direitos humanos, essa postura é cada vez mais necessária, sendo um elemento tão atrativo quanto a qualidade da escrita do autor.

Adriano de Paula Rabelo tem atuado como professor universitário de literatura e cultura brasileira em diversas instituições. Além de trabalhos acadêmicos, têm publicado textos literários. No ano passado, seu livro "Desabraçar" foi finalista do Prêmio Sesc de Literatura. Neste ano, a mesma obra foi indicada ao Prêmio Jabuti de melhor livro de contos de 2018.

O lançamento de "Ouriço: senso incomum" acontecerá neste sábado, 5, às 10h, na Boutique do Livro, na av. Antônio Olímpio de Morais, 487, Centro, Divinópolis. Telefone: (37) 3221-8753. A entrada é gratuita. O livro pode ser adquirido na livraria, no dia do lançamento, ou pela internet: www.amazon.com.br.

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