Escatologia nossa de cada dia

Domingos Sávio Calixto

 

CREPÚSCULO DA LEI – ANO III – CXLIII

 

Escatologia nossa de cada dia

 

No dia 6 de agosto (sexta-feira), em Joinville-SC, aquele que ocupa a presidência da República chamou o atual presidente do Tribunal Superior Eleitoral  (TSE) – ministro Luís Roberto Barroso –, de “filho da puta” (perdoem, 1). Mais um crime.

Ora, qualquer criminalista mediano poderia elencar ao menos duas dúzias de crimes perpetrados por aquele que ocupa a presidência, sem que nenhuma das instituições que deveriam providenciar sua responsabilização tivesse atuado devidamente.

Aquele que ocupa a atual presidência efetivamente faz o que bem entende, seja mentindo, fraudando, ameaçando, extorquindo, ofendendo ou matando por omissão. Enquanto isso – mediante a placidez benevolente dos moralistas lavajateiros –, direitos sociais são roubados e estatais são doadas – não se podem chamar tais negociatas de “vendas” – e a gangue do “centrão” sangra os cofres da nação, mediante mecanismos de embuste cujos disfarces se tornaram claramente desnecessários.

Sem embargo, não existem fiscais para esse tipo de hipercrime, aliás, sequer existem fiscais para os fiscais. Afinal, quem fiscaliza os fiscais? 

Ninguém. 

Veja-se o caso do ex-ministro (?) do meio ambiente Ricardo “passa boi, passa boiada”. Feito um Nero olavístico, atuou com jocosidade e escárnio diante das piores destruições e incêndios da floresta amazônica, da mata atlântica, do pantanal, da costa do Nordeste por derramamento de petróleo, da morte de comunidades originárias e quilombolas, do avanço dos grileiros e tráfico de madeira.  Seguramente, foi o grande ícone dos latifundiários, dos grileiros, dos garimpeiros e mineradoras. Foi responsabilizado?

Não. E note-se que o delegado Alexandre Saraiva até que tentou, detalhando a organização criminosa que envolvia o ex-ministro “passa boiada” – vide operação Handroanthus – junto à Câmara dos Deputados, além de vasta documentação encaminhada ao Supremo Tribunal Federal. Resultado? 

Nenhum. 

Por outro lado, Paulo Lima foi preso. Quem é ele?

Um motoboy. Ele é acusado de ter ateado fogo à estátua de Borba Gato em São Paulo. Apresentou-se voluntariamente, mas já havia uma prisão temporária esperando por ele. E ainda, mesmo beneficiado com ordem de habeas-corpus, teve a prisão preventiva decretada. Tudo assim, muito rápido como uma serpente, já que a lei penal é feito serpente: pica apenas os pés descalços.

Certamente o ex-ministro “passa boiada” está dando risadas, enquanto o motoboy Paulo “Galo” se submete ao sequestro público cautelar. Nada mais brasileiro que isso.

É nesse sentido que o “filho da puta” (perdoem, 2) expelido da boca do presidente é simbólico e multifacetário.

O Brasil está sendo tratado como um “filho da puta” (perdoem, 3). Desrespeitado, vilipendiado e vituperado. Por aqui a vida de vulneráveis – a patuleia – não vale nada. Aliás, vale “um dólar por vacina” nos almoços de ajustes de propina.

Em tempos históricos de reis virtuosos esse tipo de corrupção teria sido aplacado com o fio da espada no Talião de Hamurabi, e não haveria deus algum que pudesse aceitar “desculpas” de genocidas dessa ordem, ou desse caos.

Ainda sem embargos, as penitenciárias revelam-se cheias. Cheias de nada. Nada em se comparando ao hipercrime organizado em mecanismos de governo atuando contra a República. Diante dessa gangue, PCC e Primeiro Comando da Capital não passam de meros escoteiros.

Ao escambo das trágicas consequências – que ainda chegarão –, tantos outros ainda morrerão, seja pela fome, seja pela doença ou desamparo.  Enquanto isso, os filhos “daquela” – desnecessário repetir – continuarão zombando dos fiscais que não existem, nem nunca existiram, ao menos até que o Talião os separe.

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