Era uma vez um delegado

Domingos Sávio Calixto

É muito alto o preço que se paga para o exercício honroso de uma função pública, mas isto não serve de empecilho para valorosos homens e valorosas (talvez mais ainda) mulheres. O fato que se segue envolve uma dessas pessoas e acaba em um terrível 11 de fevereiro de 1888, em Penha do Rio do Peixe, São Paulo – três meses antes da assinatura da lei áurea (lei 3.353, de 13 de maio de 1888) pela princesa Isabel.

Na referida data foi covardemente morto o delegado de polícia Joaquim Firmino DE Araújo Cunha, cujo homicídio envolveu cerca de 200 pessoas a mando de um inglês chamado James Hankins Warne, e de um americano de nome John Jackson Klink, os quais foram combatentes na guerra de secessão (Guerra Civil Americana, 1861 - 1865) do lado dos confederados, ou seja, sulistas rebeldes contra Abraham Lincoln e contra as tentativas do Norte em abolir a escravidão nos EUA. 

Warne e Klink aqui no Brasil chegaram mediante os incentivos fiscais e subsídios ofertados por d. Pedro II nas tais tentativas de atrair “novas técnicas e novas culturas para o país”, ou seja, um embranquecimento da população (!). Claro, os gringos rapidamente se alinharam com a elite latifundiária de Itapira/SP, que na época chamava-se Penha do Rio do Peixe.

Por sua vez o delegado Joaquim Firmino (nascido em Mogi Mirim, 1855) tomou posse naquela cidade no dia 1º de setembro de 1855 e, não obstante a plenitude da escravocrata  da época, adotava uma postura e um discurso abolicionista, ou seja, contrária a toda elite da região que dependia de escravos, até o vigário local possuía alguns (conforme as escrituras da época, um bom escravo entre 14 e 27 anos custava cerca de dois contos de réis, ao passo que um trator de esteiras importado custava três contos de réis).

O delegado contrariava seriamente os latifundiários locais na medida em que se negava a prender escravos foragidos, além de prestar-lhes ajuda e abrigo. Era um homem contra os castigos abusivos e contra a exploração inumana que, em sua análise, deslegitimava as relações escravocratas, ou seja, defendia ideias iluministas (inclusive participando de debates e comícios).

Ora, as fortunas dos latifundiários estavam diretamente relacionadas aos escravos e às colheitas, principalmente de café, e qualquer “intervenção na mão de obra” colocaria em risco a economia, a qual (também) não poderia parar – ao risco de bancarrotas (um levantamento econômico mais completo tornou-se quase impossível tendo em vista que, logo depois da abolição e para evitar cálculos indenizatórios, o baiano Rui Barbosa, 1849 - 1923, se encarregou de destruir boa parte da documentação sobre o assunto). Verdade é que as atitudes do delegado começaram a incomodar. Muito. 

Assim, instigados e instruídos pelos gringos Warne e Klink (aqueles que deveriam trazer “novas técnicas”), fazendeiros descontentes resolveram juntar e se juntarem a cerca de 200 capangas e jagunços e, na fatídica noite de 11 de fevereiro de 1888, todos armados com garruchas, espingardas e cacetes, foram até a casa do delegado, cercando-a.

Depois de diversos tiros nas paredes, a turba invadiu o domicílio e procedeu-se o covarde linchamento da vítima, devidamente presenciado pela família, em choque, aos gritos. Um episódio animalesco, horripilante. De resto, o cadáver ensanguentado do delegado.

Apurados os fatos, cerca de vinte pessoas foram denunciadas, dentre as quais os estrangeiros, principalmente James Warne. Para a defesa dos réus, os latifundiários se associaram e contrataram o mais renomado advogado de São Paulo na época – doutor Brasílio Machado – pela assustadora monta de 100 contos de réis. Todos foram absolvidos “por falta de provas” (...).

O acontecimento ganhou notoriedade até no estrangeiro. Em virtude dele a lei da abolição que se arrastava, foi antecipada e promulgada. Estranhamente o advogado do caso caiu em sério desprestígio e ainda, em 1890, a cidade, para ocultar tamanha desonra, deixou de chamar-se Penha do Rio do Peixe para o novo nome de Itapira. O governador de São Paulo na época dos fatos era Prudente de Morais, o mesmo que autorizou o genocídio de Canudos de Antonio Conselheiro, anos mais tarde (1897).

Um livro sobre o delegado Joaquim Firmino de Araújo Cunha e sobre os episódios que o levaram a morte foi escrito por Jacomo Mandatto (que chegou a dar uma entrevista em 2001 ao programa “Provocações” da TV Cultura. Faleceu em 2009).

No meio de tantos nomes inúteis na história, o delegado Joaquim Firmino deveria ser mais bem lembrado e respeitado.

 

(*) Dedicado a todos os valorosos membros das polícias civis que já sofreram e sofrem as mais variadas perseguições.

 

domingosavio88@yahoo.com.br

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