Envelhecer a dois

 

Lá estão eles. Juntos. Juntos mesmo assim, juntos apesar de juntos ainda que... Depois dos filhos, das crises, das vaidades, das dificuldades e das intensidades, lá estão eles, sentados lado a lado na varanda da velha casa. Ela faz crochê, ele faz palavra cruzada. Ele cuida das plantas, ela cuida dele. Ela espera os netos chegarem, ele espera os netos saírem para curtir o silêncio. Para qualquer um que parar por ali, eles terão uma fala, uma prosa, uma filosofia sobre estes tantos anos juntos.

Ela vai falar que já foi bonita. Ele vai dizer que ela continua bonita.

Ela vai dizer que cuida de tudo sozinha. Ele vai dizer que ela não deixa que ele cuide de nada. Ela vai encher os filhos de elogios. Ele vai falar, no máximo, duas palavras sobre os filhos. Ela vai falar que ele, até hoje, não aprendeu usar o banheiro decentemente. Ele vai falar que o café que ela faz é forte demais. E na surdina,  cada um vigia se o outro tomou o remédio na hora certa.

Ele vai mentir que gostou da cor do cabelo dela. Ela vai mentir que ele dirige muito bem. E por mais que, nas horas de raiva, um deseje a morte do outro, eles sabem o quanto vai ser difícil essa despedida.

Agora a casa tem duas televisões. Uma para ela ver a novela. Outra para ele assistir os telejornais. Ele diz que ela é alienada, não está nem aí para o que acontece no país. Ela diz que ele é um sonhador, que pensa que vai fazer a diferença sozinho. Eles hoje têm opiniões diferentes, gostos diferentes e momentos de solidão que caminham lado a lado no sofá da sala, há anos.

Eles diminuíram as conversas e as noites de amor. Em contrapartida, eles conseguiram aumentar consideravelmente a amizade e a cumplicidade.

Ela vai falar que bons tempos foram aqueles. E neste, apenas neste quesito, ele vai concordar.

Foi assim com os nossos avós. Está sendo assim com os nossos pais e será assim conosco um dia. Vai-se o frescor, ficam as manias. Vão-se os filhos, fica a saudade. E que ninguém ouse separá-los a esta altura. Eles se completam na mesma proporção que se suportam.

Sobrou alguma coisa? Sobrou, sim. Sobrou o amor mais puro e genuíno que pode existir entre duas pessoas. O amor desprendido do corpo. Estes são os verdadeiros heróis da resistência. Se estão juntos até hoje, é porque resistiram. Bravamente resistiram.

Ainda que briguem, que xinguem ou que se atravanquem de vez em quando, o que sobrou nas entrelinhas desta história foi o amor. Depois de tantos anos juntos, eles continuam juntos.

leila.rodrigues@totvs.com.br

Comentários
×