Entre pobres e empobrecidos.

Rotativa - Maria Cândida 

 O professor e padre José Raimundo Batista Bechelaine, emérito e meritório nos dois apostolados, dedica-se com o mesmo denodo aos dois ofícios, acrescentando e enriquecendo com talento à comunicação jornalística no diário Agora, no qual assina há anos marcante coluna de assunto variado e de sabor às vezes provocante, mas sempre interessante. 

Na semana passada, ele nos deixa neste persistente Agora, do último dia 11, página 2, crônica intitulada “Por um bife”. Nela, ele conta que um caminhão frigorífico pesado de carne boa tombara em Itapecerica da Serra, Região Metropolitana de S. Paulo, tendo ajuntado gente de todo lado gritando feliz: “Se caiu no chão é nosso!”... A televisão mostrou o povo chegando e gritando “Desafastem!”. E homens e mulheres arriscavam-se no trânsito arrastando peças de carne no trânsito pesado.

 E a polícia logo chegou, a Rodoviária Federal, a Guarda Metropolitana, o Batalhão de Ações Especiais da PM. Gente com olhos cúpidos esperava uma oportunidade enquanto uns gritavam: “Libera a carne, queremos comer um bife hoje!”.

NO FIM DA MANHÃ, a polícia lançou uma bomba de gás spray de pimenta para dispersar os grupos. Outro dizia: “A última vez que comi carne foi no Natal”. Dois rapazes diziam: “Dá pra nós que sabemos o que fazer com ela”! Mulher completava: “Tenho dois filhos para alimentar. Não preciso de muita coisa. Uma peça só dava pra gente”.

Uma costureira indagava: “A polícia não tem mais o que fazer? Os verdadeiros bandidos ficam soltos enquanto a população que só quer comer é tratada como bandida!”.

Cozinheiro e dono do restaurante aguardavam para aproveitar a carne, outro jurava que seguradora queria liberar a carne, mas a polícia não deixava. Entre tanta conversa, um rapaz avisava que só saia dali quando tirassem tudo e sobrasse alguma coisa.

 Dizia outro: “ Eu só queria comer um bife!”.

 

Enfim, o cronista lembrava que santos que ajudavam pobres não faltam: Vicente de Paulo, Ozanam, Tereza de Calcutá, Dulce dos Pobres e tantos mais continuarão vivos e respeitados e amados, porém, para o autor, não serão eles a acabar com a pobreza e miséria de bilhões de empobrecidos neste mundo...

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Ledora implicante, pergunto: e, então, o que e quem acabará com a miséria do povo? Ou não terá fim? Embora a Igreja e tantos e santos seguidores socorram os necessitados e deem exemplos, parece que a tristeza não terá fim...

Daí que a jovem cuidadora Ronara, evangélica, atenta, intervém:

 “A causa de tudo deste jeito, pobreza e tristeza e miséria é a corrupção que rouba dos pobres tornando-os miseráveis. Isto não pode continuar acontecendo, principalmente com os pobres e necessitados… Não nasceram pobres, foram ficando assim empobrecidos e entristecidos pela maldade de maus irmãos sem o amor que Cristo pregou e viveu”.

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 Em tempo: o autor do texto nunca usou aqui o termo pobre, mas, sim, a palavra empobrecido... 

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Há algum tempo tento escrever uma Rotativa chamada “Desigualdade social”, tão na moda. Não tenho conseguido. É possível que este texto do professor me inspire. Aguardemos.

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