Enquanto o dia não chega

Leila Rodrigues

A madrugada sempre foi um convite à vida para mim. Acordar no meio do silêncio e ouvir apenas os primeiros passarinhos e o som dos meus pensamentos. Acostumei-me de tal forma com este momento só meu que hoje o recebo de braços e coração abertos. Se estiver triste, é na calada da noite que encontro sozinha a minha dor e dou a ela o colo que ela precisa. Se estiver feliz, é no silêncio da madrugada que me felicito e agradeço as dádivas recebidas. Sendo assim, madrugada é para mim um movimento. Movimento meu comigo e com o Criador.

 Ainda ontem tinha motivos para não dormir. A dor e a solidão das minhas decisões me fizeram acordar. Triste momento que não podemos transferir para ninguém. Restava-me remoer sozinha. E lá estava eu assistindo à cortina escura da noite se desbotar aos poucos. Eu precisava encontrar em mim algo que me fortalecesse. A manhã seguinte me aguardava forte e firme. 

Voltei a todas as decisões difíceis que tomei na vida, reconheci cada uma delas como minhas e tomei novamente posse das consequências que me trouxeram. Era como voltar a Santiago e percorrer de novo o árduo caminho de Compostela. Por que alguém pode querer rever os momentos difíceis que teve na vida por livre e espontânea vontade? Cheguei a duvidar dos meus propósitos. Mas segui em frente a minha trajetória. Às vezes é preciso voltar no tempo e reconhecer as forças que já não percebemos mais.

 Encontrei a menina magricela que tinha medo da cidade. Encontrei também a adolescente de cara pintada que foi para a rua brigar pelo direito de votar. Confesso quase não me reconheci! Encontrei-me em São Paulo buscando um lugar ao sol, na cidade cinza. Que paradoxo! Encontrei-me chegando nesta cidade tentando achar algo que se identificasse comigo. Eu, eu mesma e a coragem que eu nem sabia que vivia em mim. Mal sabia que aqui eu criaria minhas raízes. O ser humano precisa de raízes, seja para enfrentar o vento, para receber os brotos ou para se replantar quando a vida vier com suas podas.

De posse das minhas forças, olhei o tempo e vi que já era dia. Não havia mais tempo para continuar a minha viagem. Lá fora o mundo espera que eu seja apenas realidade. Sem sonho, sem choro nem vela. Um banho e um café vão me trazer de novo para o chão. 

Melhor me apressar que a vida não permite atrasos! O trem que passa hoje não é o mesmo de amanhã.



leila.palavras@gmail.com

 

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