Engolir sapos

Antônio de Oliveira 

A expressão surgiu por analogia com uma das dez pragas do Egito, quando saíram das águas inúmeras rãs, que penetraram nas casas e foram encontradas na cama e na comida do Faraó. Na verdade, admitem-se outras explicações para esta maneira de traduzir “suportar situações desagradáveis sem qualquer manifestação”. Trata-se, pois, de situações constrangedoras. Há que, nessas circunstâncias, pagar mico por uma fala desastrosa. Autoridades e famosos costumam ser flagrados pagando mico. Melhor não dar muita explicação. Um cara apresentou um soneto para Bocage apontar erros. Como os erros eram tantos, o poeta português preferiu não assinalar com cruz nenhuma, entendendo que a emenda ficaria pior do que o soneto.  

Por sua vez, a expressão “pagar o mico” parece ter surgido do baralho infantil “Jogo do Mico”. Aí as cartas exibem figuras de animais e o jogador tem que formar pares com o macho e a fêmea de cada espécie. Entanto, no baralho, o mico não tem par. Quem termina com a carta na mão perde, vale dizer, paga o mico. 

Aquele ou aquela que deseja se justificar e por vezes lhe assistem razões, quase sempre não logra êxito. Isso apesar de o contexto próximo e remoto poder minimizar o alcance injurioso ou inapropriado das palavras. Mesmo assim, o que está feito não está por fazer, o que está dito está dito e prevalece o que está escrito ou gravado. Alguém se queima com o amigo, com o cônjuge, com os filhos, dá-se por ofendido, fica queimado, melindra-se, zanga-se, independentemente, nesses casos, de saber em que circunstâncias o fato ocorreu. Outras vezes chega-se a pensar que houve o rompimento de um pacto, quando na verdade o rompimento foi devido a um incidente de percurso. 

Escorregando, pisando ou falando em falso: aquele pode provocar uma queda física; esse, uma queda conceitual, linguística ou até moral. Mas não há mal que sempre dure nem mal que nunca se acabe. Admite Guimarães Rosa: viver é muito perigoso.  

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