Efeitos colaterais

Leila Rodrigues 

Tenho andado diferente. Diferente dos outros? Não. Diferente de mim mesma. Diferente da pessoa que eu era ontem, que eu era ano passado. 

Tenho segredos. Eu agora tenho segredos guardados comigo. Não são de ninguém, senão meus. Eu os criei, eu os plantei aqui na minha cabeça. E todos os dias os cultivo com meus sentimentos.

Às vezes são segredos bons, sonhados ao longo do dia, a céu aberto, enquanto caminho pela rua e aproveito que ninguém pode ouvir meus pensamentos. 

Às vezes são segredos ruins, verdades difíceis de digerir. Verdades que precisam de um ombro a mais para serem suportadas.

No fundo são só segredos, só meus. E eu os revelo apenas se o meu coração quiser. 

Não, eu não sou um poço de virtudes, eu não acordo todos os dias achando a vida linda. Dentro de mim tem luz e sombra. Disposição e cansaço. Coragem e medo. Vontade de ir e vontade de ficar. 

Eu adoraria acordar todas as manhãs com o coração transbordando alegria e compaixão. Talvez essa seja a minha meta pessoal. Mas ainda tenho minhas manhãs de desânimo de vez em quando. Não é sempre, mas tenho.

Em tempos de pandemia, em tempos de incertezas, tenho lutado comigo mesma para ser mais forte que o contexto. Nunca precisei tanto das minhas forças mentais como agora. Na contrapartida da nossa inércia física, é preciso trabalhar a mente. Temos ouvido de tudo, de tudo mesmo. Muita gente falando ao mesmo tempo. Falando sem conhecimento de causa, falando sem saber o que fala. Falando o que lhe convém. A pandemia tem missões nobres para cada um de nós. Porém, definitivamente, em toda a minha vida, nunca precisei ser tão forte quanto agora. É preciso nos ancorarmos na fé e nos nossos valores para vencermos as agruras do momento. É preciso termos altas e boas conversas com nossos próprios valores para não nos deixarmos levar pela correnteza política que se apropria do contexto para conseguir adeptos. É preciso sermos maduros de fato, conscientes de que nada será como antes, mas que tudo pode ser reconstruído de um jeito melhor. 

Estamos todos experimentando o efeito colateral da incerteza. Só espero que experimentemos também as grandes e ricas lições que este momento tem para cada um de nós! 

leila.palavras@gmail.com

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