Educação vem de berço

Educação vem de berço

Laiz Soares

A pluralidade de ideias, a diversidade de pensamentos, a maturidade para ouvir o que não gostamos, a abertura para críticas, a vontade e a busca por sempre evoluir. A educação, o respeito, a valorização do outro como ser digno, que merece ser considerado mesmo que não seja seu amigo, mesmo que não seja um puxa-saco de plantão. A democracia, o debate, a ciência, a liberdade de ser, pensar, agir e falar. Tudo isso são valores civilizatórios da era contemporânea.  A civilização moderna, que enfrentou séculos de luta para chegar ao atual nível evolutivo, ainda encontra desafios dos tempos das cavernas.

Por mais estarrecedor que seja, o mundo moderno do advento da internet 5G, da conquista do espaço, da inteligência artificial e de tantos avanços revolucionários ainda tem que conviver com o que há de mais primitivo e arcaico, do tempo das trevas e das cavernas: com a ignorância, a falta de educação formal e moral, e a agressividade pré-histórica de machos alfa frustrados, mal resolvidos e mal amados que não têm onde descarregar sua infelicidade e insatisfação com a vida. Assim, resolvem usar de seus espaços de poder e de privilégio para descarregar todo o seu instinto de sobrevivência animalesco grotesco e primitivo em cima de quem quer que seja que possa oferecer algum tipo de perigo ou risco para a sua tribo. 

Como é que esse tipo tão primitivo de ser humano pode ainda existir, ocupar espaços relevantes de poder e ainda ditar moda, tendo seus gritos e urros de ódio ainda encontrando ressonância em parcelas da nossa sociedade? Eu penso que nós vivemos num mundo onde o passado e o futuro coexistem, depende de onde você está e principalmente quais são os valores e a educação (formal e familiar) das pessoas com as quais você convive. Na nossa cidade, por exemplo, temos uma parcela da população muito ativamente crítica e ativa. Um povo trabalhador, honesto, que cria, se reinventa e faz de tudo para sobreviver, sempre buscando o melhor pra sua família, seus pais, filhos, sobrinhos. Ao mesmo tempo, temos pessoas extremamente mal-educadas, grossas, arrogantes, descontroladas e violentas, que fazem parecer que estamos numa selva. 

Isso não seria tão grave se essa parcela não tivesse voz, poder e representatividade. Não seria tão grave se esse tipo de gente não chegasse ao poder e usasse dessa posição para maltratar as demais, agredir, ofender e acusar de crimes graves sem provas. Qual exemplo estamos dando para as nossas crianças? Estamos ensinando que não estudar, ser mal-educado, grosseiro, gritar e desrespeitar as pessoas é algo bonito e que os levará à fama e ao sucesso? É esse tipo de influência que queremos para nossos filhos?  O problema é quando temos um miniprojeto de ditador (cópia fajuta e malfeita) como “líder” que dá o exemplo errado para as novas gerações. Um antidemocrata que censura e persegue a imprensa, a acusa de corrupção de forma irresponsável e inconsequente, e expõe de forma leviana mães e pais de família desta cidade agindo como se fosse um delinquente juvenil, um moleque trambiqueiro, entre outros. 

Existem dois tipos de educação: a que vem de berço, que se aprende com os pais, e a que você tem na escola. Os hipócritas de plantão adoram jogar toda a responsabilidade da educação plena e da formação do caráter e dos valores dos seus filhos na escola. Eu venho de uma família onde o que eu aprendia na escola era complementar ao que eu aprendia em casa. E, quando o assunto não era técnico (fazer contas e aprender gramática), mas, sim, moral, o que sempre valeu e ainda vale é o que meus pais diziam. Hoje, com 30 anos de idade, após ter vivido anos assumindo altas responsabilidades longe dos meus pais, continuo tendo o mesmo respeito por eles e vivendo com base nos mesmos valores e condutas que eles sempre me ensinaram que eram corretos. 

Esses dias conversei com minha mãe sobre isso, comentei o quanto é impressionante o fato de eu ainda obedecer a eles e de respeitá-los tanto a ponto de ter até medo deles como quando eu era criança e adolescente, mesmo sendo uma mulher adulta independente. Minha mãe, com muita sabedoria, me disse: “Minha filha, eu nunca vou deixar de ser sua mãe, de  chamar a sua atenção no que for preciso e te corrigir, mostrar que está errada, te falar a verdade que você não quer ouvir e, mesmo depois de velha, se precisar até de apanhar para você virar gente, saiba que não pensarei duas vezes [coisa que ela nunca fez quando eu era criança],  porque meu compromisso é com você educada, sendo gente digna, fazendo o que é certo. Enquanto eu viver, eu vou ser sua mãe”.  

Eu tenho muito orgulho e me emociono com os pais que eu tenho, porque até hoje eles não medem esforços para me tornar um ser humano digno. Eu nunca fui uma menina birrenta, mimada e “pitizenta”, eles nunca deixaram, e tudo que eu sou eu devo a eles e à criação que me deram, a todos os nãos que me disseram, a todas as vezes que foram duros comigo pra que eu me tornasse uma pessoa madura. Tem muito filhinho de papai mimado e inconsequente por aí que não teve um pingo de educação ou, se teve, não honra as calças que veste. Educação vem, acima de tudo, do berço, e cabe a nós honrar a que nossos pais nos deu, dando exemplo para as próximas gerações de como ser, e não de como não ser.  



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