Edson Sousa se irrita com a imprensa

Vereador não gostou de ser perguntado sobre apoio a empresários no aumento do IPTU


Da Redação

O vereador Edson Sousa (PMDB) perdeu a paciência com jornalistas nesta terça-feira (21).

Durante entrevista coletiva após a reunião ordinária da Câmara, na qual ele defendeu interesses de entidades de classes cujos representantes acompanharam a sessão e atacaram verbalmente o vereador Ademir (PSD), que se posicionou a favor do aumento do Imposto Predial e Territorial Urbano (IPTU), Edson foi perguntado a respeito pela repórter Pollyanna Martins, do jornal “Gazeta do Oeste”.

— Deixa eu te falar: essa pergunta sua não é séria, uai. Eu nunca falei que estou defendendo os interesses dos empresários no IPTU. Essa pergunta é sua mesmo? Do jornal “Gazeta”? Não, eu não estou defendendo interesse de empresário não, uai. Eu estou defendendo é o interesse... que tem uma LDO [Lei de Diretrizes Orçamentárias] aqui, com R$ 28 milhões, lançada e aprovada, que passa pra R$ 91 milhões. Não tô defendendo interesse de empresário, não. Essa pergunta sua, sua, que foi você que fez, ela, pra mim, foi desrespeitosa. Ela, por exemplo, ela cheira a maldade. Eu não vi essa pergunta nem com os meus pares aqui agora, uma pergunta dessa — disse Edson.

Pollyanna começou a fazer outra pergunta, mas foi interrompida pelo vereador.

— Não. Deixa eu te falar.  Eu gostaria que a senhora se retratasse comigo. Nós temos aqui seis seguimentos da imprensa. Nenhum dos seus colegas me fez essa pergunta. Nenhum colega vereador me fez essa pergunta. A senhora foi maldosa comigo – acusou.

Neste instante, Edson foi lembrado pelo repórter do Agora, Ricardo Welbert, de que o papel da imprensa é fazer perguntas que ninguém faz. O vereador, porém, ignorou e seguiu em frente com o ataque à jornalista.

— A senhora foi muito maldosa. Hora nenhuma, hora nenhuma, hora nenhuma eu defendi interesse de empresário, tipo cota básica. Se a senhora até me perguntasse de uma forma mais tranquila, mais... eu tinha tanto critério técnico pra falar com a senhora, que a senhora iria ficar encantada. Sobre, por exemplo, o prefeito Galileu esteve na minha casa ontem, antes de ontem, e ficou lá mais de duas horas. Conversamos muito, conversamos muito de uma forma técnica. Agora eu queria fazer uma pergunta à senhora, como cidadã: por que essa casa está calada [pelo fato de] que o Conselho da Cidade não foi convocado e porque essa casa está calada e a imprensa está calada [pelo fato de] que a conferência não foi convocada? Por quê? — questionou.

O repórter Geraldo Passos, do portal “Divinews”, disse que Edson estava invertendo os papéis ao fazer perguntas a jornalistas. Mas, o vereador ignorou e seguiu com os questionamentos.

— Por que? Por que que o estatuto do Plano Diretor, que fala que o Conselho da Cidade tem que ser chamado e a Conferência da Cidade tem que ser instalada? Hoje eu vi em um determinado segmento da imprensa aqui que um determinado secretário deve sair. Por que será que o secretário do Cadastro, até agora, ninguém citou o nome dele hora nenhuma? Eu, confesso, eu tenho um grande respeito pela senhora. Mas essa pergunta sua foi uma pergunta, assim, muito maldosa com a minha pessoa. Hora nenhuma eu defendi interesse de empresário, tipo  preto, branco, pobre, rico. Eu estou discutindo uma planta genérica de valores — pontuou.

Geraldo Passos lembrou novamente que perguntar o que ninguém perguntou é papel da impressa e ressaltou que não percebeu maldade na pergunta da colega, porque no momento em que Ademir estava sendo atacado no plenário por representantes de classe, Edson saldou da cadeira de onde estava e correu para impedir que os seguranças da Câmara retirassem os manifestantes. O repórter também lembrou que ao usar a tribuna no mesmo dia, Edson criticou uma afirmação que Ademir fez contra os empresários que estão pressionando os vereadores a votar contra o aumento do IPTU. Esse fato, afirmou Geraldo, valida a pergunta feita por Pollyanna.

— Essa pergunta sua, Geraldo, é muito oportuna. Porque o que o Ademir falou aqui hoje é muito pesado. O Ademir falou que têm vereadores aqui defendendo interesse de empresário que tem acima de dois mil lotes. Os senhores é que têm que saber disso do Ademir. Quem é o vereador e quem está defendendo. Os senhores e as senhoras é que tinham que saber isso do Ademir. O fato gerador. Agora, eu fui lá para fazer a paz. Eu não sei se você sabe, Geraldo, eu tenho um estudo. Um dos maiores metros quadrado de segurança pública está em Divinópolis. Você sabe que quando eu fui presidente, a polícia nunca esteve aqui e nunca teve segurança? Então, o que eu fiz ali, foi instalar a paz. Porque, por exemplo, na reunião passada, vocês que estão aqui e têm compromisso com a verdade, teve um cidadão que, quando o pastor Wilson Botelho esteve aqui, ele ficou quatro minutos xingando a Câmara e ninguém fez nada. A imprensa não falou nada. O que eu pedi ao presidente é se poderia um líder que estava lá [usar o mesmo espaço para se manifestar]. Eles [os representantes de classes do comércio e da indústria] me chamaram. Eu não fui atrás dele não, Geraldo. Eu fui chamado — respondeu Edson.

O repórter do “Divinews” lembrou que o cidadão citado por Edson invadiu o tempo de fala do vereador Cleitinho Azevedo (PPS), que permitiu, e o tempo foi contabilizado.

— Não, nós estamos mudando de assunto. Você sabe o respeito que eu tenho por você, pela imprensa. Esse país, essa miséria toda, sem vocês nós estávamos mais perdidos. Às vezes a fama de eu tentar falar bonito. Não é isso. Eu sou uma pessoa estudiosa, do bem. Eu não entro em trem errado. Se vocês soubessem o que eu falei pro [prefeito] Galileu lá em casa... — disse Edson, sorrindo na parte final.

Amanda Quintiliano, repórter do “Portal Centro-Oeste”, disse que a imprensa não teria como saber o que ele disse a Galileu se ele não contasse.

— Igual, por exemplo, quando eu falei hoje do artigo 47 do Estatuto do PMDB [referindo-se a trecho do discurso do dia na Câmara]. Eu sei que isso não vai sair. Eu sei que não vai sair. Igual, por exemplo, eu não fui notificado [em referência à carta que Dr. Delano e Adair Otaviano afirmam ter recebido do partido com ordem para que votem sempre a favor do governo]. Por exemplo: eu mandei para o Fausto Barros [presidente do diretório local do PMDB] um WhatsApp. Né?  Agora, por exemplo, o Estatuto, eu falei que eu me sentei com o Adair e o Delano nesses cinco meses. Tem mais de cinco meses que nós nos sentamos. Não fui convocado. Agora, de vez em quando você pega um jornal grande, que tem um fator psicossocial grande, igual, por exemplo, eu posso falar uma coisa pra vocês: esse projeto vai ser rejeitado por nove a cinco — acrescentou.

Amanda perguntou se já que o projeto vai ser rejeitado, por que os vereadores não o colocam em votação e depois discutem com o Conselho da Cidade.

— Ô Amanda, pede a controladora para liberar. E o prefeito Galileu — disse ele.

— Mas você mesmo pediu pra adiar — lembrou Amanda. 

— Eu não pedi não, minha querida. Eu estou aguardando informações.

— Você solicitou com o requerimento, oficialmente, que fosse adiado para o ano que vem.

— Não. Tem um requerimento que foi apreciado por dez vereadores pedindo audiência para o ano que vem. O verbo no parágrafo 2º do artigo 92 do Plano Diretor está no futuro. É a partir de 8 de abril de 2018 que começa o período de vacatio legis. Eu acho que nós temos que buscar a verdade, né? Buscar a verdade. Eu sempre atendi vocês. Sempre fui elogiado por vocês. Na vida pública a gente tem que ser criticado, sim. Mas falar, em uma pergunta aqui, que eu estou defendendo interesse de empresário? — questionou Edson.

Geraldo lembrou que durante recente reunião na sede da Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (Fiemg) Edson disse que pediria que a votação do IPTU ocorresse no ano seguinte.

— Neste caso, o senhor pediu. Foi interesse dos empresários passar para o ano que vem. Foi interesse deles. O senhor atendeu, sim, ao interesse dos empresários — afirmou o repórter.

— Não fui eu que atendi, Geraldo. Geraldo, a sua relação comigo até 31 de outubro do ano que vem vai ser uma relação turba. Ela vai melhorar a partir de 1º de janeiro de 2019. Eu conheço essa casa. O que vocês estão tentando fazer, igual, por exemplo, com essa sua pergunta... Hora nenhuma não.  Os empresários mandaram ofício pra todos os vereadores. Nós colhemos dez assinaturas. Então vocês tem que perguntar eu e mais nove, Geraldo. Eu não sou o líder de vereadores [mas, o requerimento citado pelos jornalistas, embora tenha a assinatura de outros nove vereadores, foi encabeçado por Edson]. Geraldo, eu desafio um empresário desses aqui a falar que me deu um chiclete, uma bala, que me fez uma coisa, sô. Você me conhece. Você me conhece muito bem, Geraldo. Então, deixa eu te falar uma coisa: o que eu estou defendendo é uma coisa genérica. É uma planta genérica de valores. Eu não estou defendendo questão de empresário. Geraldo, se você procurou saber qual é a visão que eu tenho do IPTU progressivo, da cota básica, da política de zoneamento... Gente, eu sou sociólogo. Vocês têm que perguntar eu e mais nove — rebateu.

Pollyanna perguntou a Edson se ele, quando se colocou entre o segurança da Câmara e o empresário que atacava Adair, tentava proteger o colega ou o empresário.

— Fui contra o presidente pedir para retirar a pessoa do plenário. Eu fui presidente dessa casa. Se você fazer uma pesquisa com todos os funcionários concursados, fui eleito o melhor presidente. Hoje a TV Integração me entrevistou como o vereador mais atuante da Câmara, pela proporção do trabalho que eu fiz. O que fui fazer foi para não haver um conflito na cidadania. Porque na reunião passada nós tivemos uma pessoa que ficou por quase cinco minutos atacando o plenário e eu fiquei com medo disso evoluir. Eu sou da paz. Acho que nós temos que esgotar os discurso nos limites máximos que têm. A imprensa tem um papel fundamental. Porque o Plano Diretor, o Conselho da Cidade e a Conferência da Cidade não foram instalados. Por que não, gente? Por que vocês não perguntam isso ao prefeito também, gente? Eu leio o jornal. Eu assino o jornal. Por que vocês não ligam agora, por exemplo, paro o Pezito [Clever Greco, secretário de Meio Ambiente]? A minha pauta é isso. As coisas estão muito erradas. Muito feitas a toque de caixa. Um conceito de perder pra ganhar. Isso não pode ser tão simplista assim — respondeu Edson.

O repórter do Agora lembrou a Edson que Adair Otaviano não ordenou à segurança que expulsasse os empresários que atacaram verbalmente o vereador Ademir. Exigiu apenas que eles ficassem entre público e os vereadores.

— Teve agressão verbal, como teve na outra [reunião]. O que eu não queria era isso. Que não acontecesse isso aqui. É preciso ter um rito. Uma liturgia. A casa está vivendo momentos de tensão muito grandes.    Têm coisas muito grandes aí. Por exemplo: até senador envolvendo nisso, poxa. É ligando pra senador e tudo. Você não sabe o que está acontecendo. O jogo é um jogo, assim, muito pesado. É um jogo que requer muita humildade. Muita prudência. Muita coerência nessa hora. Muita cabeça fria. Aqui ninguém tem vitória ou derrota pessoal. Tem coisas que foram muito pedidas no Plano Diretor — acrescentou.

O repórter da rádio Divinópolis lembrou que Edson, durante uma de suas falas na mesma tarde na Câmara, disse que iria se ausentar da reunião, em forma de solidariedade aos empresários que tiveram, segundo ele, o direito de resposta negado.

— Deixa eu te falar: porque uma a... uma empresária pediu pra usar. Quando, por exemplo, uma analogia na última quinta-feira, uma pessoa ficou quase quatro minutos falando, eu achava também que criaram um rito novo agora. Quem pode mais, pode menos. Por que pode uma coisa na sala para a Amanda e pro outro tem outra? É questão de rito. A minha intenção é da paz. O parlamentar vive do verbo. Eu quero é debater. Vou debater com meus colegas agora uma questão técnica. Eu até pergunto, numa visão aristotélica: por que só eu que fiz emendas? Olha as minhas emendas — disse Edson.

Assista ao tumulto na Câmara

A repórter do “Portal Centro-Oeste” lembrou que a própria Câmara apontou inconstitucionalidade nas emendas de Edson, porque vereador não pode legislar sobre causa tributária.

— Então o prefeito não deveria mandar pra cá, né querida Amanda?

— É um projeto. Vocês podem provar ou reprovar o projeto dele.

— Pega o Aristides [Salgado, ex-prefeito] em 93. Olha as emendas que tem, quem fez. Olha em 93. Estuda. Revisão não é aumentar, não. O Aristides reduziu em 30% o IPTU em 93, quando ele era prefeito. Aqui tem uma estrutura que tem gente que tenta fazer o triângulo ficar quadrado e o roxo ficar verde. Então...

Geraldo Passos pontuou:

— Mas é interessante que o senhor é tão conhecedor do Regimento Interno e colocou emendas sabendo que seriam inconstitucionais, sabendo que não pode legislar em coisa tributária.

— O senhor é que está falando que é inconstitucional. O doutor Geraldo Passos. Um grande jurista. Eu não falei. Deixa eu te falar. A Comissão falou que é inconstitucional? A doutora Rosângela [procuradora da Câmara] falou?

— Várias pessoas já falaram, inclusive as entidades — disse Amanda.

— “Várias”. Amanda, você é uma jornalista...

— Mas eu não tenho que ouvir só a doutora. A gente faz uma pesquisa muito mais ampla — disse a repórter.

Neste momento da entrevista, a vereadora Janete Aparecida (PSD) e o vereador Zé Luiz da Farmácia (PMN) interromperam para chamar Edson para uma reunião entre os vereadores.

— Edson, a gente tá esperando. Por favor, vamos lá. A gente precisa começar essa reunião — disse Janete.

— Com todo respeito, mas... — acrescentou Zé Luiz, de muletas.

Os jornalistas disseram que não tinham mais perguntas e que o entrevistado estava liberado. Porém, Edson não deu ouvidos ao chamado e voltou a falar com Pollyanna sobre sua indignação com a pergunta feita por ela.

— Como cidadão, não gostei da forma como você me perguntou. Deixa eu te falar: eu mereço respeito humano. Aqui tem um ser humano. Aqui tem um ser humano.

— Eu só te perguntei. Eu só te perguntei — disse a jornalista.

— Quê isso, já vem tacando o pé no peito, uai.

— Nosso papel é esse, Edson — relembrou o repórter do Agora.

— Eu sei que é, Ricardo. Mas não é por aí, sô. Ricardo, você nunca viu...

— Ela só te fez uma pergunta. Era só responder “sim” ou “não”.

Bastante irritado, como é possível ver no vídeo acima, Edson começou a gritar com o repórter.

— Olha as minhas emendas se tem alguma coisa defendendo empresário. Quê que é isso, sô! Eu recebi uma coisa aqui agora, que eu tô sendo ameaçado de morte, sô! — disse Edson, gerando um breve silêncio na sala.

— Edinho. Calma, Edinho. Escuta — disse Zé Luiz da Farmácia.

— Uai! O que é isso, sô! Essa pressão em cima de mim! — gritou Edson, visivelmente irritado.

— Quem está ameaçando o senhor? — perguntou o repórter do Agora.

— Uai, sô. Eu recebi agora um telefonema, uai — esbravejou, sendo contido por Zé Luiz.

— De quem? Conta pra gente.

— Tudo vem em cima de mim, uai! Deixa eu te falar: tem jeito de pegar minha fita e gravar quem ligou pra mim. Vêm os outros em cima de mim! E vai chegando uma moça bonita assim [e aponta para Pollyanna] e taca o pé assim igual jogador do Vasco? Pergunte com educação — reclamou.

A partir deste momento, o vereador grita mais.

— Pega!!! PEGA AS MINHAS EMENDAS E VÊ SE EU FIZ ALGUMA COISA PRA EMPRESÁRIO, SÔ!!! Pega lá a senhora!!! Se eu fiz algum a coisa pra empresário!!! — gritou, apontando o dedo no rosto de Ricardo e Pollyanna.

Zé Luiz da Farmácia interviu, puxando o colega.

— Mostre a sua classe — disse o vereador, puxando Edson para o plenarinho e colocando fim à entrevista.

 

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