Dos “traficantes evangélicos”

 

Uma das mais contundentes bizarrices dos últimos tempos mistura coisas absolutamente antagônicas dentro do paradoxo do ridículo: traficantes evangélicos. Sim, esse troço esquisito existe, anda, fala, ameaça e faz vítimas. Tais pessoas, além de se dedicarem à prática criminosa da venda de drogas ilícitas, resolveram diversificar por conta própria o conceito de moralidade e religiosidade.

Traficantes evangélicos estão agindo contra centros e terreiros afroreligiosos de Candomblé, Umbanda e quaisquer outros assumidamente entregues à fé e à crença dos Orixás, mediante violência moral – uso de armas – e determinam a destruição de locais sagrados para mães-de-santo e pais-de-santo, sob ameaças de morte, tudo assim “em nome do Senhor Jesus!”.

Ao que tudo indica, eles imaginam uma espécie de compensação espiritual estruturada na seguinte lógica: destruindo-se terreiros de Umbanda e Candomblé, a prática do tráfico de drogas será perdoada por Jesus, logo, vale a pena (?). Para eles pode ser um bom negócio, afinal os adeptos dos cultos africanos, a chamada africanidade religiosa, são compostos em sua maioria por pessoas pacatas e despreparadas para esse tipo de embate, já que não possuem nenhuma rede de televisão ou qualquer mídia que possa render-lhes alguma força política.

Certo é que não fazem o mesmo contra sinagogas ou mesquitas e os casos mais graves estão ocorrendo no Rio de Janeiro, onde vídeos de humilhação se espalham numa hipocrisia religiosa que só poderia ser arquitetada por quem, de fato, não possui moral alguma. Trata-se de uma violência inominável na medida em que busca guarida no legado religioso exatamente de quem sempre pregou toda a tolerância e o amor entre os fraternos.

Quando o Cristianismo difundiu o entendimento de que somos todos filhos do mesmo Pai, isso repercutiu em todas as áreas dos saberes humanos e sociais, e foi criar fincas no direito pelo princípio da igualdade (isonomia) e até nas bases da dignidade e dos direitos humanos. Esse é o paradoxo que os tais traficantes evangélicos parecem, ou fingem, não entender. Aliás, por se dedicarem ao crime de tráfico de drogas, seguramente não sabem o que é Cristianismo.

A Polícia apura se há envolvimento de pastores (?) os quais estariam incitando e estimulando essas práticas, o que seria lamentável. Sem embargo, já é lamentável escutar em alguns sermões de igrejas evangélicas algumas insinuações acerca dos cultos africanos, associando-os às práticas “satânicas”. Trata-se de um vilipêndio aos cultos, aos Deuses e à espiritualidade africanos.

Imagine-se um retorno de Jesus nestes tempos sombrios e, aqui, testemunhando Ele tantas falsidades, explorações e crimes em Seu nome. Ficaria estarrecido com as diversificações de Sodomas e Gomorras que por aqui se espalharam, imiscuídas com templos para todos os gostos. Provavelmente seria preso novamente, capturado por igrejas que lucram fábulas em Seu nome. Seria espancado e humilhado. Exigiriam Dele novos milagres.

Mais uma vez a lógica dos homens de bem (?). Quem disse que Jesus deveria produzir novos milagres para provar-Se. Seria necessário para Ele? Quem sabe ele já voltou e tentou mostrar-Se pelas Suas atitudes apenas, sem a estética dos milagres? E se Ele já foi não capturado e morto? Provavelmente vítima de uma bala num beco de favela qualquer? Ou estaria agora agonizando num corredor de hospital público, ou sendo humilhado no fundo de uma cela superlotada? Não. Provavelmente estaria dormindo ao relento, feito mendigo, até que alguém Lhe mate pelo fogo, por pura diversão. Chamas em abundância combinariam em tudo. Afinal o inferno é aqui.

 

Domingos Sávio Calixto é professor de criminologia e direito penal da Faculdade Pitágoras e doutor pela Universidad Del Museo Social Argentino (UMSA).

 

 

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