Dores de estimação não têm razão

RODRIGO DIAS - Dores de estimação não têm razão

Dores de estimação não são dóceis. Muito pelo contrário, por estarem próximas, serem íntimas de nós, são muito mais danosas. Dores de estimação são escravizantes, quando não se toma conta delas.

Aquela palavra atravessada na garganta, um gesto incerto, uma vontade de... A falta de reciprocidade, o peito apertado por um coração abafado; cheio de vazios. Essas são dores que começam pequenas, irrelevantes, e que vão se avolumando. Tomam conta da pessoa.

O choro, o silêncio e a fobia são alguns dos sintomas de quem “cuida” de uma dor de estimação. A letargia, aguda, provoca o afastamento do indivíduo do ambiente social. Junto, vem uma sensação de desesperança. Num quadro assim, a única companhia é a dor. Por mais surreal que possa parecer, nesse tipo de relação um se retroalimenta do outro; a dor e quem sente.

Em recente relatório o IBGE aponta que 10,2% da população brasileira, maior de 18 anos, sofre de depressão. O que corresponde a 16,3 milhões de pessoas. No levantamento anterior, de 2013, eram 11,2 milhões de pessoas com a doença. Os dados são da Pesquisa Nacional de Saúde (PNS) de 2019.

Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), a prevalência da depressão no Brasil já é a segunda maior carga de incapacidade, sendo o maior índice na América Latina. No mundo todo estima-se que mais de 300 milhões de pessoas, de todas as idades, sofram com esse transtorno.

Dois mil e vinte e 2021 têm sido anos desafiadores. A pandemia acentuou problemas crônicos – como desemprego, fome e falta de perspectiva no futuro – e o Brasil se tornou um grande quintal, em que milhares de pessoas cultivam suas dores agravadas pela crise. Muitos, sem saber a quem recorrer, engrossam uma estatística triste: o atentado contra a própria vida.

Ainda não existem números consolidados sobre esse fato nos últimos dois anos, mas há consenso entre estudiosos de que a pandemia e o agravamento da crise farão o número subir.

“Nós esperamos que, em termos de saúde mental, ocorra um aumento grande, nos meses e anos vindouros, dos casos de depressão, transtorno de ansiedade e uso de substâncias, por várias razões. Os mais otimistas dizem que passaremos por uma recessão econômica e, para os mais pessimistas, por uma depressão econômica. Questões que aumentam o desemprego e a insegurança sobre o futuro. O somatório disso são mais quadros depressivos, mais quadros ansiosos. A previsão é de aumento no número de casos de suicídio nos próximos anos devido à pandemia”, diz o professor titular na UFMG e presidente das associações Brasileira e Latino-Americana de Prevenção do Suicídio, Humberto Correa, em matéria reproduzida no portal Cofen e pelo site do Tribunal de Justiça do Distrito Federal e dos Territórios.

Ainda segundo o professor, que também é presidente da Associação Mineira de Psiquiatria, na nossa sociedade o descaso pela saúde mental é muito maior do que em outros países.

Mesmo com essa constatação, o Serviço Único de Saúde (SUS) oferece uma rede de atendimento que tem como porta de entrada a atenção primária, ou seja, a unidade de saúde mais próxima de sua casa deve ser procurada. Em muitas delas há grupos de apoio e até mesmo parceria com universidades, igrejas e associações diversas também podem oferecer atendimentos.

Falar sobre a depressão e sobre as dores de estimação é um primeiro passo para se evitar um mal maior. Nesse caso, o silêncio e o afastamento social não são, necessariamente, boas companhias.

Falar ou escutar quem precisa faz toda a diferença. Pode salvar uma vida.

rodrigodiascomunica@gmail.com

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