Doenças ocupacionais

Augusto Fidelis 

No livro “O Pequeno Príncipe”, Antoine Saint-Exupéry relata que a raposa indagou do novo amigo se no seu planeta havia caçadores. Como ele disse que não, a felpuda logo quis saber se havia galinhas. Ante a resposta negativa, ela exclamou: “Neste mundo nada é perfeito”. Pensando bem, não é mesmo. Com a evolução tecnológica, era para a vida ser uma maravilha, mas não é.

Levantamento inédito feito pelo Ministério da Previdência revela que os distúrbios osteomusculares relacionados ao trabalho, que reúne doenças de coluna, tendinite, bursite e outras lesões por esforço repetitivo (LER) e transtornos mentais e comportamentais, como depressão, ansiedade, apatia e agressividade, já respondem por mais de um terço dos afastamentos do trabalho. Inclusive, andam dizendo que o uso do computador faz secar as lágrimas, porque o usuário se mantém muito tempo de olhos fixos na tela.

Os esforços repetitivos, que acompanham as novas tecnologias, e o estresse presente no ambiente de trabalho moderno, especialmente nas últimas décadas, abalaram a saúde do trabalhador brasileiro. O setor de serviço, o que mais se expandiu nos últimos tempos e o que mais empregava até recentemente, é um dos protagonistas dessa realidade. Com essa tal de pandemia, tudo piorou.

Houve época em que era muito chique trabalhar em banco, mas hoje a coisa está feia. O setor bancário teve a alíquota do Seguro de Acidente de Trabalho elevada de 1% para 3% sobre a folha de pagamento, depois que a Previdência constatou uma prevalência de doenças de bancários em relação à média dos trabalhadores. Para a especialista em saúde pública da Universidade Federal da Bahia, Letícia Nobre, a forma de organização do trabalho é altamente adoecedora. A pressão é maior, e as doenças de voz, auditivas e os sofrimentos psíquicos aumentaram. O ritmo de trabalho é excessivo e o nível de responsabilidade também.

Na disputa pelo mercado de trabalho, por melhores salários e reconhecimento das doenças ocupacionais, quem perde são as mulheres. Constatação feita pela coordenadora do Laboratório de Saúde do Trabalho da Universidade de Brasília, Anadergh Barbosa, mesmo em setores nos quais há o predomínio feminino, como nas confecções, o reconhecimento pelo INSS dessa vinculação entre doença e trabalho é maior para os homens.

No sentido de aliviar a barra, os especialistas recomendam aos trabalhadores cuidarem um pouco mais de si: caminhada, alongamento, respeito ao horário de refeições e lazer faz um bem danado. Mas, para aqueles que gostam de bebida e cigarro, o cenário é desanimador.

augustofidelis1@gmail.com 

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