Documentário: o encontro do cinema com jornalismo

Maria Tereza Oliveira 

No cinema existem diversos gêneros como terror, drama, comédia, musical... Dentre esses gêneros, diversos filmes chamam atenção do público por serem baseados em fatos. No entanto, o estilo que de fato documenta acontecimentos reais não despertam o interesse do público e sequer é considerado cinema por parte da audiência. Mesmo com uma categoria fixa no Oscar desde 1942, para muitos o gênero documentário ainda luta para se provar um produto da indústria cinematográfica. A confusão acontece porque muitos consideram o documentário como um produto jornalístico. Até mesmo dentre os próprios documentaristas a divisão entre estes valores - jornalismo x cinema - não é tão delimitada.

Verdade seja dita: a princípio, documentários eram usados para contribuir com investigações, mas assim como em todos os aspectos do cinema, com o tempo, a prática foi evoluindo, ganhando elementos que o aproximava mais do cinema, não necessariamente o afastando do jornalismo. Mesmo tão entrelaçado ao jornalismo, o primeiro gênero do cinema foi de fato o documental. Prova disso é que os primeiros filmes dos irmãos Lumière, ainda no século XIX, retratavam cenas do cotidiano. A exemplo da fatídica cena do trem assustando as pessoas durante as primeiras exibições do cinema para o público.

Baseando x retratando fatos

Mas se por um lado, o tom realista que os documentários dão às obras, afasta o público, o contrário ocorre em obras ficcionais que são baseadas em fatos. São inúmeros casos nos mais diversos gêneros: "O lobo de Wall Street" (2013), é uma comédia dramática policial, dirigida por Martin Scorsese e baseada na vida de Jordan Belfort, um ambicioso corretor da bolsa de valores que construiu um império, acumulando riquezas de maneira irregular. O filme recebeu inúmeras indicações ao Oscar e é um queridinho dos cinéfilos. Outros sucessos baseados em fatos são "A Lista de Schindler" (1993), "O Pianista" (2002), "O Homem Elefante" (1980), "12 Anos de Escravidão" (2013), "Intocáveis" (1987) e "A Teoria de Tudo" (2014).

Agora voltando ao Lobo de Wall Street, enquanto o filme dá algumas adaptadas nos fatos dramatizados, aumentando um pouquinho ali e suavizando um pouco aqui, vai deixando o filme mais palatável, comercial e intrigante de assistir. Mas imagine que a mesma história fosse apresentada em forma de documentário. Mesmo com a diferenciação de outras formas de não-ficção, por oferecer uma opinião, uma mensagem específica, junto com os fatos que apresenta, o documentário ainda está preso aos fatos e não pode simplesmente inventar elementos que fujam da verdade para agradar o público. Portanto, para muitos, a vida real é menos interessante do que a ficção e essas pessoas preferem ver filmes baseados em histórias reais do que a própria retratação dela.

Policial e musical

Mas se têm assuntos que os documentários se sobressaem e conseguem mais espaço no imaginário popular, essas pautas são envolvendo crimes ou música. No caso de crimes midiáticos, há um interesse, uma curiosidade em entender como alguém poderia arquitetar um assassinato x ou como funciona a mente de uma pessoa capaz de realizar um ato específico - às vezes em série. Exemplos internacionais de documentários famosos que tratam sobre crimes são "A Mente do Assassino: Aaron Hernandéz" (2020), "Conversando com um Serial Killer: Ted Bundy" (2019), "Mason" (1973).

Já na questão musical, os fãs têm curiosidade de saber como é o dia a dia do ídolo, ou mesmo como uma turnê foi realizada, como foi a vida de determinado cantor e, enfim, qualquer material que possa fazer o público se aproximar do ídolo. Exemplos de documentários sobre divas pop é o que não faltam, como “Gaga: Five Foot Two” (2017), “Amy” (2015), "Janis Joplin – Little Girl Blue” (2015), "Homecoming – A Film by Beyoncé" (2019).

Documentários brasileiros

O cinema nacional, sobretudo no que diz respeito ao documentário, tem se destacado nos últimos anos. Prova disso foi a recente indicação ao Oscar do documentário "Democracia em Vertigem" (2019) onde Petra Costa documenta um recorte do cenário político no Brasil dos últimos anos, com a ascensão e queda do PT e a recente popularização do conservadorismo no país. Mas não para por aí, dentre as obras nacionais, de alta qualidade, que você consegue encontrar no catálogo da Netflix mesmo, constam a série documental "Bandidos na TV" (2019) que retrata os acontecimentos relacionados ao apresentador e político Wallace Souza, acusado de planejar os crimes violentos que ele mesmo mostrava em seu programa. "Investigação Criminal" (2012 - presente) que a cada episódio mostra o trabalho da polícia para descobrir os autores de crimes midiáticos, como o caso dos Von Richthofen e Isabella Nardoni, dentre outros. A série já está em sua nona temporada. 

No mundo da música brasileira, os documentários não deixam a desejar, como o caso do "Raul: o início, o fim, o meio" (2012) que fala sobre vida e a morte precoce de Raul Seixas. A Netflix também já investiu no maior nome atual no cenário nacional - em popularidade - com a série "Vai Anitta" (2018) que mostra a escalada da "Poderosa" no sonho da carreira internacional. Embora sem muito compromisso com a imparcialidade, ao pintar a cantora apenas com qualidades positivas, a série foi um sucesso e já está renovada para a segunda temporada, sem data de estreia.

Como podemos perceber, o documentário acaba sendo uma ponte entre o jornalismo e a 7ª arte, alguns com mais influências jornalísticas, outros mais inclinados para a linguagem do cinema, mas sem que um atropele o outro.

Maria Tereza Oliveira é jornalista e editora-chefe do site cebolaverde.com.br

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