Dez dias e dez anos

Dez dias. Esse foi o tempo que a China precisou para levantar um hospital na cidade de Wuhan, para atender os pacientes infectados pelo coronavírus e as pessoas com suspeita da doença. Chamada Huoshenshan, a instituição de saúde possui mil leitos. É de deixar qualquer um estarrecido. Além do prazo recorde, a estrutura e logística deixam qualquer de queixo caído. Período que, no Brasil, certamente não daria nem para depositar os materiais no local. É estarrecedor e, principalmente, vergonhoso para o Brasil. Divinópolis tem o exemplo “vivo” disso, ou seria morto, já que não passa de um elefante branco. Neste ano, faz dez anos que as obras do Hospital Público Regional Divino Espírito Santo começaram. Abandonada, vem sendo deteriorada pelo tempo. Hoje, o Regional se resume a mato, infiltrações, vidros quebrados, falta de segurança e nada mais. Cerca de R$ 60 milhões em dinheiro público foi investido até agora, sem ter a certeza de que será usado de volta para quem pagou: o povo. Situações que envergonham os brasileiros perante o mundo. A iniciativa pública brasileira falhou e falha miseravelmente todos os dias.

A estrutura de 25 mil metros quadrados do hospital em Wuhan começou a ser construída no dia 23 de janeiro. O canteiro de obras foi ocupado por 100 tratores e quatro mil trabalhadores, que se revezaram em três turnos de trabalho, de acordo com a agência Xinhua. Um segundo centro médico, o Leishenshan, com capacidade para mil leitos, está em construção e deve ser inaugurado nos próximos dias. Os primeiros pacientes já chegaram ao hospital em Wuhan e estão sendo atendidos. É mais do que vergonhoso. Enquanto milhões de pessoas agonizam nas filas do Sistema Único de Saúde (SUS) no Brasil, à espera de uma consulta, um exame, uma cirurgia ou um procedimento médico qualquer – muitos morrem antes de ser atendidos – a China se organiza e esfrega na nossa cara que nós falhamos todos os dias, todas as horas.

Talvez “vergonhoso” não seja a palavra certa para definir essa situação e nem existam palavras para isso. Pois, analisando um pouco mais a fundo a situação, ela ultrapassa todos os limites toleráveis. No Brasil, mais especificamente em Divinópolis, uma obra parada é um prato cheio para político ou candidato. Quanto mais se tem, mais oportunidades para palanque eleitoral. Afinal, é isso que eles usam para fazer campanha política. Vão para as portas das obras inacabadas à caça de mais eleitores. Fazem seus discursos carregados de emoção – mesmo que da boca pra fora – postam nas redes sociais, vão embora e não olham para trás. Apontam os problemas, mas não conseguem apresentar uma solução. Jogam o combustível e ficam só aguardando alguém riscar o fósforo. Sem sombra de dúvidas, não existe nome para isso. E o pior: a população já se acostumou, e mal se levanta do lugar para tomar uma atitude.

Dez anos. Este é o tempo que o Hospital Público, propagado por tantos políticos com seus 200 leitos, aguarda para ser concluído, que os candidatos utilizam da obra para se promover e arrastar mais um desinformado que, poucos meses depois, não sabe nem em quem votou. Este é o período que os políticos mostram como falham miseravelmente e o povo idem, que mostram que a política pública no Brasil é balela. É o tempo que mostra que, por aqui, terra de mais caciques do que índios, a política só funciona quando é para interesse próprio. Período suficiente para comprovar que o país é ainda uma nação sem rumo, sem conquistas e sem propósitos.

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