Devia ser proibido

Maria Cândida 

E dizia a moçoila espevitada, de cabelo esganifrado, vendo os destroços da casa esparramados pelo chão em meio ao barro e lixo, e repetia aos barros e berros:

— Isto devia ser proibido! Onde se viu deixar este entulho todo esparramar pelo chão? Devia ser proibido construir casa assim na beirada dos morros caindo, nos caminhos esburacados, de qualquer jeito, na maior falta de respeito com os pobres coitados, agora ainda mais desabrigados e debaixo de chuva e barrancos esparramados...

Devia ser proibido deixar uma coisa destas! É uma falta de caridade e de respeito. Janelas quebradas, portas estouradas, paredes esfarinhadas, gente machucada, debaixo dos escombros pedindo socorro pelo amor de Deus! Alguém devia fazer alguma coisa! E ninguém faz nada! Isto devia ser proibido!

Concordo com a garota de cabelo esganifrado e grito estridente. Devia ser proibido, sim.

Devia ser proibido construir casa de morar nas bases pobres dos morros podres e escorregadios. Devia ser proibido construir e pôr a família com crianças e velhos desabrigados de qualquer jeito pra se proteger da tempestade.

Todos deviam merecer os cuidados de Deus e do irmão e do mínimo decente e justo. E devia...

Devia, sim, moça revoltada, esganifrada e tonitroante. Devia ser proibido, sim, por lei forte e valendo. Devia.

Só que tem que...

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