Deus de quem?

Desde que o mundo é mundo, o povo segue um líder para se orientar. E, desde a redemocratização do Brasil, em 1988, essa necessidade de ter um “Deus” se tornou algo doentio no país. Dividida entre direita e esquerda, a política brasileira já foi protagonista de capítulos dramáticos na nação. Donos de escândalos e mais escândalos, os políticos (tanto de direta, quanto de esquerda) sabem muito bem como conduzir seu gado, ou melhor, seu eleitorado. Alienados a tudo o que acontece na política brasileira, e dominados por uma paixão avassaladora, os eleitores caem direitinho nessa “conversa fiada” de que aquele homem (ou mulher) veio para tirar o Brasil da lama. Essa conversa tem funcionado muito bem desde as eleições de 1989, quando Fernando Collor foi eleito.

Já são 30 anos escutando promessas de que o próximo deus será eleito e mudará tudo, e o Brasil ainda terá mais 30 anos de promessas não cumpridas pela frente. O segredo disso tudo está em algo muito simples. Basta o político falar o que o eleitor quer escutar e pronto, ele é o novo deus desse país tropical, abençoado por Deus. Sem qualquer senso crítico, a população escolhe aquele que falou que ela queria ouvir, e prometeu o que nunca será cumprido. A cada dois anos, no dia 1° de janeiro, milhares de homens e mulheres são empossados a assumir algum cargo, e eles só chegaram lá depois de andar muito, prometer muito, falar muito. Mas, a verdade é que o povo só conhece realmente o que está por baixo daquela máscara depois do dia 1° de janeiro.

Tanto faz se é direita ou esquerda, a lambança é a mesma. Durante oito anos a esquerda fez oposição a Fernando Henrique Cardoso. Durante 16 anos, nos governos de Lula e Dilma, foi vez de a direita fazer oposição. Eis que depois de um impeachment, a direita assumiu o poder mais uma vez, e agora é a vez da extrema direita, por meio de Jair Bolsonaro (PSL). Neste enredo todo de oposição, situação, pedra, telhado, “hoje sou eu, amanhã é você”, direita, esquerda, o Brasil se afunda cada dia mais na corrupção. Não há sequer um deus capaz de suprir as expectativas da população. Hora temos esquerdistas fanáticos defendendo tudo o que o seu candidato faz, hora temos direitistas extremos fechando os olhos para tudo o que o seu candidato faz.

E, se a palavra de ordem usada na última eleição foi “renovação”, eles estavam com a razão. Porém, não é preciso renovar os políticos, é preciso renovar os eleitores. É preciso renovar a forma de pensar. Sentar à frente de um computador, e se autodeclarar oposição ou situação de um governo, em nada muda o dia a dia. O salário mínimo continua mínimo, os impostos continuam altos, a pobreza continua aumentando, a violência segue tomando conta das cidades e o povo continua sustentando os engravatados. Enquanto o gado, ou melhor, o eleitorado, se mata pelo seu candidato, pelo seu ponto de vista, os engravatados continuam em seus gabinetes com ar-condicionado, e viajando pelos aeroportos com as malas cheias de dinheiro.

Ser oposição ou situação tanto faz, o principal não é feito: ser representando. E, até que este deus, salvador do Brasil seja eleito, o jeito é trabalhar para continuar sustentando essa classe que só trabalha pelo seu interesse.

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