Desinformação que mata

O alerta vem do Ministério da Saúde: o Brasil corre risco de sofrer novamente com epidemias de doenças como sarampo e poliomielite porque os pais não estão vacinando seus filhos. No ano passado, 312 cidades não vacinaram nem metade das crianças menores de um ano. Quando perguntados sobre isso pelos agentes de saúde, muitos pais dizem que leram em algum grupo de WhatsApp que as doses das vacinas é que podem matar seus filhos e, por isso, não os levam aos postos para receberem as doses.

Diante desse imbecilizante efeito colateral da tecnologia, convém rememorarmos o poder de destruição desses dois vírus. O sarampo era considerado uma doença erradicada no Brasil desde 2016, quando a Organização Mundial da Saúde (OMS) identificou que o país estava havia um ano sem registro de casos do vírus. Mas isso mudou neste ano. Boletins recentes da entidade advertem que está em curso um surto dessa doença altamente contagiosa e que pode levar à morte de crianças pequenas ou causar sequelas graves. Casos mais recentes foram comprovadamente importados da vizinha Venezuela.

Em relação à pólio, o Brasil registrou 27 mil casos entre as décadas de 60 e 80. Uma simples busca na internet nos traz imagens devastadoras de pavilhões hospitalares lotados de crianças paralisadas. Ano que vem, porém, faz três décadas desde o mais recente caso confirmado desse vírus selvagem em solo tupiniquim.

A erradicação da pólio criou uma falsa sensação de que a vacinação não é mais necessária. Além disso, mentiras disseminadas na internet por grupos antivacina enganam muita gente. Por mais absurdo que seja, muitos pais acreditam nessas falsas informações e decidem por não vacinar os filhos contra doenças que podem matá-los ou deixá-los com sequelas graves (sobre esses riscos, leia também a charge publicada na página 9 desta edição).

Diante de tamanha ignorância por parte de tantos pais, percebe-se que a responsabilidade por proteger as crianças brasileiras não pode ficar apenas a cargo deles. Os genitores têm pleno direito de não gostar de levar seus filhos para vacinarem. Mas esse completo desleixo com a saúde dos pequenos precisa ser punida de alguma forma, pois se trata de um atentado à saúde pública.

A queda da imunização cria grupos de crianças vulneráveis a vírus e bactérias.  Algo que afeta não só os filhos daqueles cujos pais resolveram não vaciná-los, mas também os que não podem ser imunizados por razões de saúde e bebês que ainda não estão idade para a vacinação. Portanto, quanto mais gente imunizada, mais haverá a chamada “imunidade de rebanho”.

O volume de bobagens perigosas que circula nas redes sociais disseminando medos, mitos e mentiras sobre vacinas é imenso e precisa ser combatido com ações multissetoriais. A começar por escolas e creches que precisam começar a exigir certificado atualizado de vacinação. Polícias, Ministério Público e Justiça também precisam ser acionados e abastecidos com capturas de telas que provem a distribuição dessas mensagens mentirosas que atentam contra a saúde pública.

Com esses esforços coletivos, pode ser que haja tempo de impedir que crianças inocentes sejam vítimas da irresponsabilidade e ignorância dos seus pais.

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