Depressão policial mata mais que combate ao crime

Maria Tereza Oliveira

Continuando a série de reportagens sobre o “Setembro Amarelo”, o tema desta edição é a depressão no meio policial. Ano após ano, policiais perdem a vida para a doença. Em 2018, por exemplo, o suicídio tirou a vida de mais profissionais da área de segurança do que o combate ao crime. Pelo fato de estes profissionais terem de manter uma postura “invulnerável”, muitas vezes o problema não recebe atenção.

O vereador Sargento Elton (Patriota) levou o assunto à Tribuna Livre na reunião de terça-feira. O vereador destacou o índice de autoextermínio entre profissionais da segurança pública. Segundo ele, as situações atuais contribuem para a depressão na categoria.

— O Estado está parcelando o salário dos profissionais de segurança há quatro anos e há mais de cinco anos sem nenhuma reposição — apontou.

O vereador, que ficou conhecido na cidade pela sua atuação como policial militar, contou situações difíceis que o policial enfrenta no trabalho.

— Infelizmente lida com o lado negativo da sociedade. Só vê coisas ruins: mulher degolada, criança estuprada, enfim, vítimas de todos os crimes — exemplificou.

Pressão

O vereador também contou que os policiais precisam lidar com muitas cobranças, que geram pressão psicológica no profissional.

— Há pressão da sociedade e também interna. Toda essa somatória muitas vezes resulta em policiais que ceifam a própria vida. Então, há de se pensar nas políticas públicas do governo para esses profissionais — apontou.

Ao Agora, o parlamentar comparou a circunstância com um barril de pólvora.

— Eles [policiais] estão passando por problemas familiares, que, aliados à profissão extremamente estressante, acabam agravando os problemas. Os policiais, por incrível que pareça, não têm insalubridade, periculosidade, hora extra, adicional noturno e têm de ficar pronto para o empenho durante 24 horas, mesmo em seu horário de descanso. É realmente desumano. Isso sem falar do alto risco, já que ao sair para o trabalho, eles não sabem se retornarão com vida — relatou.

Números assustadores

De acordo com a Associação dos Praças Policiais e Bombeiros Militares de Minas Gerais (Aspra), somente em 2019, em Minas Gerais, já foram registradas 31 mortes de policiais por suicídio.

Em parâmetros de comparação, ainda de acordo com Aspra, apenas uma morte de agente de segurança pública aconteceu em confrontos.

Já os dados do Sindicato dos Servidores da Polícia Civil do Estado de Minas Gerais (Sindpol/MG) revelam que, entre 2003 e 2014, 173 policiais militares civis e bombeiros foram mortos em confrontos. Ou seja, a média anual era de 15,72.

Conforme dados do Anuário Brasileiro de Segurança Pública, em todo o país, houve mais policiais vítimas de suicídio do que assassinados em horário de trabalho no ano passado. Ao todo, foram 104 suicídios de policiais durante o expediente. Em contrapartida, 87 policiais civis e militares perderam a vida em confrontos.

Há ajuda?

Sargento Elton revelou que existe um psicólogo na rede orgânica para atender os profissionais da segurança pública.

— No entanto, são muitos casos, e a política pública para esse problema deve ter maior investimento — pediu.

Sargento Elton contou que, no próximo dia 16, a categoria irá até a Cidade Administrativa, em Belo Horizonte, para reivindicar melhorias para a segurança pública, inclusive em relação à saúde mental dos servidores. A ação está marcada para as 12h, em frente ao prédio Tiradentes.

Campanhas

A Prefeitura, por meio da Secretaria Municipal de Saúde (Semusa), tem realizado ações de saúde mental para aumentar a conscientização sobre tratamentos.

Conforme divulgou o Município, unidades de saúde programaram atividades ao longo do mês. 

De acordo com o secretário de Saúde, Amarildo Sousa, é essencial falar abertamente sobre o tema.

— Os que se suicidam, na realidade, tentam livrar-se da dor. Mesmo se não estiver seguro de que necessita de ajuda, não tenha receio de contatar o número de apoio 188, disponível 24h — aconselhou.

A Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) de Divinópolis lançou a campanha “OAB pela Vida”. A iniciativa conta com o apoio das polícias civil, militar e federal.

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