Demonização do jornalismo

A imprensa caminha há algum tempo por caminhos muito perigosos. Alguns beiram à loucura, e é preciso muita calma, muita paciência e fé de que dias melhores virão. E nestes caminhos, que começamos a trilhar em meados de 2016, está a “demonização do jornalismo”. É fato que durante muitos anos o jornalismo se encontrou nas mãos de um monopólio. Apenas determinadas famílias “faziam” jornalismo com os seus grupos de comunicação. Isto nunca foi e nunca será bom, pois, quando o poder da informação se encontra em poucas mãos, o direito de ser informado corre um grande risco. Também é fato que parte desta demonização que o jornalismo enfrenta atualmente está ligada à manipulação que estes “impérios da comunicação” exerceram durante anos a finco. Anos em que a comunicação se fazia apenas com um ciclo: mensagem + meio + receptor. Este foi o caminho percorrido por muitos e muitos anos pelo jornalismo.

Mas, em 2010, tivemos o boom da internet e, em seguida, do Facebook. Uma rede social utilizada apenas para que os seus usuários compartilhassem momentos de sua vida, de seu cotidiano. Porém, a plataforma foi além, e, hoje, tem nada mais nada menos que dois bilhões de usuários, sendo que 1,2 bilhão está ativo todos os dias. E foi justamente esta polarização da internet, junto com o Facebook, que transformou o jornalismo. Com a rede social e um pacote de dados, qualquer um é produtor de conteúdo. Basta um celular na mão e um click para que uma cadeia de pessoas saiba que algo está acontecendo. E nem o monopólio da comunicação muito menos a população estavam preparados para o resultado de todo este processo, afinal, nem sempre produzir conteúdo significa que ele será de qualidade.

De 2010 para cá, já tivemos milhares de notícias falsas circulando pela rede social, que ganhou um UP com a polarização do WhatsApp. A receita: conteúdo falso + Facebook + WhatsApp + ignorância do povo era um prato cheio para a realidade catastrófica que vivemos hoje. Uma das fake news que mais impactou a sociedade foi a de que as vacinas disponibilizadas pelo Ministério da Saúde causavam autismo. O resultado disso? Um surto de sarampo no país. Pessoas desesperadas, formando filas quilométricas nos postos de saúde, correndo atrás do prejuízo. Relatos de pais que perderam filhos para a doença, pois não os vacinaram. De um lado, o bom jornalismo dizendo que não, as vacinas não causavam autismo. De outro, as fake news. O brasileiro escolheu o caminho mais doloroso.

Dentro desses caminhos dolorosos está a demonização do jornalismo. Acreditam que vacinas causam autismo, mas não acreditam no velho e bom jornalismo. Acreditam que vão aprovar um projeto de lei autorizando relação sexual entre pai e filho, mas não acreditam naquela notícia que foi minimamente apurada. Mesmo com tantas pedras no caminho, é preciso resistir em nome da informação. É preciso manter-se de pé, para que um pouco de lucidez ainda exista no Brasil. A lição já foi dada aos impérios da comunicação. Agora, basta o povo aprender que demonizar o jornalismo não é um dos melhores caminhos a seguir. Afinal, já tivemos resultados catastróficos por aí.

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