De segredo em segredo...

Augusto Fidelis

Nesta noite, no meio da madrugada, acordei com uma briga de gatos bem no rumo da minha janela. Aos gritos, os insultosos lançavam todo tipo de praga um contra o outro, com palavrões intraduzíveis. Agoniado com tal situação, prologada além do razoável, levantei-me, fui até a janela e ameacei chamar a polícia. Não sei se entenderam, mas a contenda foi encerrada.

Voltei-me para a cama, mas não conseguia dormir. Durante a insônia, continuei a pensar em gatos, pensamento que se desdobrou para gatunos, larápios, coisas do submundo. Aí me lembrei de um fato acontecido com uma colega de trabalho há alguns anos. Certo dia, um larápio resolveu visitar a casa da Dorinha, quando esta ainda estava a caminho para o almoço. A intenção do mão-leve, imagino, era adiantar os preparativos para a refeição da visitada, porém, nesse interim, o maligno soprou-lhe aos ouvidos e o sujeito resolveu ir embora antes da deglutição, levando consigo o aparelho de som novinho, que a colega acabara de comprar. Todo mundo é fascinado por música, mesmo quem parece não ter coração. 

Ao chegar em casa, tão logo certificou-se da visita indesejada, Dorinha entrou em desespero, pois teria de pagar algo que já não possuía. Uma das suas primeiras providências foi ligar para a empresa e justificar o não comparecimento no período da tarde, pois precisava tomar as providências recomendadas em situações como esta, tão insólita. Mas fez uma exigência ao colega que atendeu ao telefone: não queria que mais ninguém soubesse do ocorrido. Mas esse colega informou ao seu superior, com o natural pedido de segredo. Aos poucos, sigilosamente, a casa foi tomando conhecimento  do fato, mas cada um que passava adiante tinha o cuidado de pedir segredo.

Ao lembrar-me desse episódio, a minha memória me trouxe também à tona os meus tempos de curso do primário, particularmente do livro “As Mais Belas Histórias”, no qual está a fábula “O Segredo da Cutia”. Dona Cutia, para se livrar do aborrecimento dos outros animais, que diariamente iam à sua porta pedir água e comida, resolveu construir uma casa nova debaixo das raízes do ingazeiro, aquele ingazeiro velho que fica perto da ponte.

Mas dona Cutia contou seu segredo para a raposa, que contou para o coelho, que contou para o caxinguelê, que contou para o sapo, que contou para a tartaruga, que contou para a maritaca, tudo com muito segredo. No fim da tarde, todos os pássaros e animais da floresta já sabiam da novidade. No entanto, muito inteligente, dona Cutia arrancou a placa da casa velha e colocou na nova, porém continuou morando na antiga. Daí teve sossego. Ah! Bons tempos!

augustofidelis1@gmail.com

 

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