Crescem casos de distúrbios psicológicos entre policiais civis e militares em MG

Gisele Souto

O Código Internacional de Doenças (CID) diz que a profissão do policial militar é a segunda mais estressante do mundo, perdendo apenas para os mineiros. Mas os policiais civis, não ficam atrás. Dado que vem de encontro aos dezenas de profissionais sofrendo nos últimos anos com algum distúrbio psicológico.

Nos últimos 20 anos, muitos deles convivem com mistura de ansiedade, irritabilidade, depressão e muitas síndromes, como a do pânico.

Algumas ocorrências graves registradas em Minas Gerais envolvendo integrantes das duas corporações comprovam doenças desta natureza enfrentada por eles.

Dentre as últimas, por exemplo, está o caso do militar que matou a ex-mulher e sequestrou a filha em Santos Dumont, na Zona da Mata. Ele não aceitava o fim do relacionamento. Está preso desde abril, mês em que praticou o crime.

O mês seguinte registrou três fatos semelhantes. Um policial civil matou a ex e duas filhas dela em Santa Luzia. Um escrivão da Polícia Civil matou uma mulher dentro da Câmara de Contagem.

Em Divinópolis

Divinópolis também não fica fora da estatística. O último registro ocorreu no ano passado. No dia 12 de agosto do ano passado, um soldado da Polícia Militar matou a ex-namorada (também militar) e a ex-sogra. Depois voltou à cidade natal, matou a mãe e suicidou.

Os corpos das duas foram encontrados por volta das 11h30 na casa delas, na rua Espírito Santo, no bairro Sidil. Elas foram assassinadas na noite anterior.

Investigações apontaram que policial não aceitava o fim do relacionamento, tendo deixado uma carta ao irmão explicando os motivos que o levaram a praticar os crimes. Na época, ambos faziam o curso para sargento em Belo Horizonte, onde se conheceram e começaram o relacionamento. Até hoje, quase um ano depois, novos esclarecimentos sobre o caso não foram divulgados.

Dados

Dados da Associação dos Praças Policiais e Bombeiros Militares de Minas Gerais (Aspra-MG), escancaram que cerca de 25% dos policiais militares são afastados do trabalho por problemas psicológicos no Estado. A entidade não soube precisar os números de Divinópolis e região, mas confirma a existência de vários casos. 

Dentre os policiais civis, o Sindicato dos Policiais Civis de Minas Gerais (Sindpol) afirma que o índice é ainda mais alarmante: 33%.  Isso, segundo o sindicato, significa que em média um a cada três agentes fica de licença médica por causa de transtornos causados pela profissão.

O Sindpol informou à reportagem que também não separa dados por região para evitar constrangimentos. Porém, também confirma registros na cidade e no Centro-Oeste.

As duas corporações em Divinópolis não divulgam informações sobre o assunto, sob alegação de não expor a vida particular dos policiais.

Fatores de risco

Especialistas explicam que esses profissionais estão mais expostos a fatores que levam ao sofrimento mental, como o risco de morte e o fato de estarem sempre armados mesmo em momentos de folga e lazer, visando sua proteção e da sua família.

De acordo com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, 76% dos policiais já foram vítimas de ameaças em consequência da profissão e cerca de 70% tiveram companheiros de farda mortos em serviço.  Os dados mostram que o trabalho de um policial em uma noite é temeroso, sendo ele exposto as situações de muito estresse e alto risco.

Pressão

A Aspra, por meio de seu presidente, sargento Marco Antônio Bahia, afirma que os PMs lidam com as mazelas da sociedade e a rotina profissional acaba sendo uma carga pesada. Além disso, revela que a pressão interna dos quartéis, aliada às cargas horárias extenuantes, bem como a procedimentos que não ocorrem na iniciativa privada (privação de feriados e fins de semana, por exemplo) se acumulam ao longo da vida e geram uma gama de transtornos psicológicos ao policial militar.

— A Aspra/PMBM atua no sentido de pressionar pela disponibilização de mais psicólogos, psiquiatras e psicanalistas para a categoria com o objetivo de não apenas tratar, mas também prevenir esses problemas — sintetiza.

Assistência

A Polícia Civil de Minas Gerais (PCMG) informou, por meio de sua assessoria de imprensa, que oferece plano de saúde, além do atendimento exclusivo no Hospital da Polícia Civil. Disse também que oferece atendimento especializado de psicólogo, assistente social e psiquiatra a seus servidores e familiares. A PCMG conta ainda, de acordo com a assessoria, com o Centro de Psicologia, que atende a todos os seus servidores. Prossegue dizendo que realiza ainda gestão dos recursos humanos com acompanhamento dos seus profissionais nos locais de trabalho e todas as ações são tomadas pela instituição para minimizar quaisquer efeitos negativos advindos do estresse da profissão à saúde dos servidores.

Comentários
×