Crepúsculo da Lei – XXXV

Um algoritmo chamado povo

Segundo a mitologia romana, Hermes era o deus mensageiro. Ele fazia a ligação entre os demais deuses e os homens. Era tradutor e de grandes habilidades diplomáticas, mas também era astuto e malandro, bem como possuidor de sandálias voadoras, e seu símbolo era um bastão com serpentes e asas, o famoso caduceu.

Considerando-se que Hermes levava as mensagens dos deuses aos homens, a questão inicial que se apresenta é exatamente essa: os homens não sabiam o que falavam os deuses, senão pela fala de Hermes e, portanto, a fala original dos deuses era desconhecida dos homens.

Isto serve para representar uma definição de poder para os tempos atuais: poder é o controle da tecnologia. Quem controla a tecnologia midiática tem o poder moderno de Hermes, ou seja, a tecnologia é a mensageira dos deuses e, tal qual ocorreu com Hermes, não se sabe ao certo o que os deuses andam dizendo para a tecnologia.

Hermes era também malandro e esperto, assim como a tecnologia, e por isso o surgimento das fake news. Elas funcionam como as sandálias voadoras de Hermes, bem velozes mesmo, inclusive estabelecendo o lócus do altar erigido na batida do seu caduceu: a pós-verdade.

Ora, uma das premissas da verdade é ignorar os sentimentos e fazer valer os fatos. Todavia, segundo a pós-verdade, o que importa é ignorar os fatos e fazer valer os sentimentos. Assim, são os sentimentos que estruturam escolhas e decisões em tempos modernos e, por isso mesmo, o importante é escolher. Se o importante é escolher, não há que se deter em preocupações, pois a tecnologia midiática faz isso para as pessoas, aliás, para os algoritmos.

Para a tecnologia midiática, pessoas são desnecessárias. O algoritmo pertinente para pessoas tem o código de povo, mesmo que sejam algumas dúzias de almas perdidas.

Para a tecnologia midiática, por exemplo, valeu muito para o povo a imagem de Bolsonaro ajoelhado aos pés evangélicos do bispo Macedo, dentro da filial do templo de Salomão em São Paulo, quando ele – Bolsonaro – também deixou de comparecer à cerimônia católica de canonização da primeira santa brasileira, Santa Dulce dos Pobres.

Para a tecnologia midiática, em outro exemplo, a cidade de São Paulo já tem seu próprio santo. Considerando-se os altos números de mendigos naquela capital, eis que o governador Dória saiu pelas ruas distribuindo papel higiênico, pasta de dente e sabonete para eles, afinal, não se pode admitir mendigos com hálitos fedorentos e de glúteos com resquícios de fezes. Não é um santo?

Pela tecnologia midiática, pode-se o todo léxico. É por isso que a presidência recorre ao americano Steve Bannon, que também orienta Olavo de Carvalho, que orienta os filhos de Bolsonaro, que orientam o povo e que não precisa escolher nada. Tudo em combo, pronto.

Segundo a tecnologia midiática – que não se espanta com Aécio e Temer soltos, nem com o caso do porteiro, dos laranjas, das  milícias – Lula representa uma elite internacional, e por isso deve ser combatido.

Para a tecnologia midiática a entrega da Petrobras foi ótima, as reformas trabalhistas e previdenciárias foram excelentes, a entrega de Alcântara foi melhor ainda, nunca houve ditadura no Brasil, vacina mata e a terra é plana.

A tecnologia midiática faz valer o algoritmo da democracia como algo que realmente exista e que o povo é capaz de assumir o poder mediante escolha de seus representantes. Representantes? Onde? A tecnologia midiática responde.

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