Crepúsculo da Lei XLVII* – A revolta do supositório

 

         Era uma vez um reino muito distante e longínquo, no final do fim do mundo. O reino era dividido em duas partes: uma central que se situava no centro, e outra marginal que circundava as margens. O clima do reino era muito quente no verão e muito frio no inverno. A população do reino era dividida em classes dos eupátridas, demos e metecos.

Os eupátridas ocupavam o centro do reino do fim do mundo e dominam politicamente as outras classes, pois eram muito ricos e compravam os mandatos dos legislamenos e dos juiztantes.

         Os demos era classe média (ou meio baixa) do reino. Ocupavam a divisa do centro para a periferia. Era a classe dos vocatos e seus clientes, dos medicinantes e seus clientes, dos engenheirados e seus clientes, dos policialistas e seus clientes, dos religioseiros e seus clientes. Era uma classe muito unida.

         Os metecos eram a ratatúia, a choldra ignóbil do reino, os ignorantes e estrangeiros, a tribo dos à toas e os isolados afetivos. As classes eram divididas naturalmente e não havia necessidade de aulas no reino, sendo que as escolas serviam para a guarda de vacas e porcos no inverno.

         Os eupátridas eram muito cruéis e maltratavam sem piedade os demos, apenas os demos, já que os metecos já nasciam maltratados e haviam se acostumado com isso, inclusive maltratando-se uns aos outros.

         Ocorre que num belo dia – mas não muito belo – apareceu um extraneo no reino com muitos livros na bagagem. Alguns diziam que ele vinha de Sarapatel ou Sebastopol, outros de Cripteia. Verdade é que o extraneo tinha estranhos hábitos acompanhados de estranhas palavras. Dizia ele chamar-se Zaratustra III e falava constantemente de certo mito da caverna.

         O extraneo falava nas praças sobre igualdade, fraternidade e coisas assim. Coisas assim de maiêutica e que seriam boas assim para todo o reino. Foi embora em pouco tempo. Verdade é que a prosa estranha virou um feitiço para a classe dos demos e ela se deu conta que era mesmo muito maltratada.

         Os demos tiveram ajuda dos metecos – prometendo-lhes não interferir na conhecida vida maltratada deles – e conseguiram assumir o poder mediante um golpe que ficou conhecido como a “revolta do supositório”, porque pegaram os eupátridas à traição, quase por trás, sem que pudessem reagir.

         Tão logo os demos assumiram o poder trataram logo de distribuir a maldade, até mesmo para a nova classe de dirigentes. Com a revolta do supositório, todos eram igualmente maltratados, sem distinção de dor.

         Todos ficaram muito alegres em serem igualmente maltratados de forma tão igual. Foi feita uma grande festa no reino, apenas com água mais suco de gengibre com jiló para maltratar, claro. Todos beberam e celebraram, e deram ao evento o nome de democracia. Depois da festa da democracia, o fim do mundo nunca mais foi mesmo. Até hoje todos são igualmente maltratados e felizes.

(*) Caros leitores, pretendo me afastar por uns dois meses da coluna. Volto em fevereiro/20. Abraços.

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