CREPÚSCULO DA LEI – XXX: A QUEM SERVIR?

Domingos Sávio Calixto

O Direito Penal tem esse nome por causa da pena da deusa Maat, da mitologia egípcia, a qual pesava os corações dos homens em uma balança e, com sua pena (de avestruz) em um dos pratos, avaliava o coração dos mortos e punia os mentirosos, por que tinham o coração pesado, mais que sua pena.

Na mitologia grega a divindade que personificava a mentira e a má fé chamava-se Dolo, cujo nome também foi aproveitado pelo Direito Penal para indicar os crimes praticados com vontade e conhecimento, portanto dolosos, diferentemente dos crimes de negligência, os culposos.

Na mitologia nórdica o deus da mentira era Loki, filho bastardo de Odin e irmão de Thor. Loki era gênio em práticas de magia e tinha poder de assumir a forma que escolhesse. Era um trapaceiro e perito na arte de ludibriar, um ser diabólico.

A palavra diabo, por sua vez, tem origem grega – diabolus - e significa aquele que divide, separa, contrariamente ao simbólico. Assim, o diabólico separa e o ser simbólico é aquele que une.

Na Bíblia (Provérbios 6:16-19) consta as coisa que Deus abomina, a saber: olhos altivos, língua mentirosa, mãos que derramam sangue inocente, coração que trama projetos iníquos, pés que se apressam a correr para o mal, a testemunha falsa que profere mentiras, e o que semeia contenda entre irmãos.

Todavia, existem diversas pessoas que estão no poder e que são capazes de reunir em si mesmas todas as abominações bíblicas mencionadas, com especial ênfase à prática da mentira, muito embora insistam em se apresentarem como religiosas e seguidoras de práticas cristãs.

Ora, foi divulgado para a imprensa de modo geral – mas a imprensa estrangeira foi a que teve mais capacidade de assombro – que o desmatamento na Amazônia aumentou cerca de quarenta por cento nos primeiros meses deste ano, ou seja, algo correspondente a mais de cinco mil quilômetros de floresta perdidos, muito embora alguns contabilizem isto como ganho (?), seja de madeira, área de pasto ou outra exploração (privada) qualquer.

Ocorre que, em virtude disto, o diretor do INPE – Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais e órgão encarregado de monitorar o desmatamento da Amazônia – Doutor Ricardo Galvão - sim, engenheiro renomado e com doutorado – foi exonerado exatamente por fazer o que se esperava dele: falar a verdade, ou seja, dentro das práticas de trambiques que assolam o país – onde parece que a mentira é a deusa a ser cultuada – foi exonerado por não mentir ao divulgar os verdadeiros dados de tais crimes de desmatamento.

Seria inacreditável em outras situações, mas não. O que ocorre é exatamente isso: um culto à falsidade, à hipocrisia e à mentira. Tudo com as devidas exemplações vindas de cima, em abundância. Finge que não sabem, mas tem que haver uma escolha a quem servem: aos deuses da trapaça e da mentira, ou ao Deus que alegam cultuar em nome da verdade, do amor e do perdão. Não há como servir a dois deuses ao mesmo tempo.

 

 

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