CREPÚSCULO DA LEI – XXIII

O nascimento da favela

Favela é uma planta, praticamente uma árvore, de três a cinco metros de altura, da família das seringueiras e que assim se chama por conta dos seus favos verrugosos e espinhentos. São uns danados espinhos cáusticos e dos quais, em contato com a pele, se exala uma espécie de látex bastante ardente. Foi na proximidade de tais plantas, no alto de um morro, que os soldados da República acamparam para o cerco contra a comunidade de Belo Monte, na Bahia, em 1897 (oito anos após a expulsão do imperador D.Pedro II) com objetivo de destruir aquela comunidade e dizimar seus habitantes por completo.

Foi um genocídio. Aproximadamente 25 mil moradores foram exterminados naquela empreitada determinada pela República comandada pelo presidente Prudente de Morais. Do alto do morro das favelas o famoso canhão conhecido por “matadeira” disparava contra o povoado e, como a maioria das casas era feita de barro e bambu, tudo voava pelos ares e veio o apelido de “Canudos”. Era um povoado que crescia vertiginosamente, ocupado por ex-escravos, andarilhos e retirantes em busca de um assentamento de vida nova, ou seja, sertanejos. No livro “Os Sertões” Euclides da Cunha se refere a eles como Hércules-Quasímodos, misturando o herói mitológico dos gregos com o corcunda desajeitado de Notre Dame, romance do francês Vitor Hugo.

Em Belo Monte, ignorava-se a tal República evidentemente, e por isso pagaram um preço alto, inclusive o líder da comunidade, notoriamente conhecido nos livros de história por Antonio Conselheiro, cuja própria cabeça foi levada para ser estudada (?) na Universidade da Bahia, pelo professor Nina Rodrigues. Alguns livros falam em guerra de Canudos, mas não foi. O que ocorreu foi uma carnificina, um massacre, um genocídio. Mas a própria República também pagaria seu preço, mediante a lei cósmica da causa-e-efeito.

Os soldados retornaram à capital, Rio de Janeiro, com a firme convicção do recebimento dos respectivos soldos e recompensas por parte do Governo. Tomaram um calote. Sem que o Governo tomasse as providências devidas, ocuparam um morro para construir barracos de moradia, única providência autorizada: foi no morro da Providência. Ali, mal e parcamente instalados, relembravam dos tempos recentes em que estavam no morro das favelas, lá na Bahia. Daí veio o nome favela para o morro da providência, a primeira favela do Rio de Janeiro, na época capital da República, um verdadeiro paradoxo social.

Um místico mais entusiasmado poderia alegar eventual maldição contra as favelas, algo como decorrente das vinte e cinco mil almas eliminadas em Canudos, e que ainda hoje exigem vingança de sangue, lá do além. Mas ocorre que o espírito de Canudos não é disso. Aliás, o antigo arraial está debaixo d’água, sob açude Cocorobó, BA. Parece mesmo é que os soldados do morro se foram desta, ou foram para outra. Os soldados de hoje, principalmente no Rio de Janeiro, atacam favelas. Ainda existem “matadeiras”, mas agora instaladas em tanques negros com caveiras. Nada ou nenhuma frase como “Proteger e Servir”.

É de fato um paradoxo. A República foi a responsável direta pela instituição da primeira favela e colocou nela soldados sem soldos, a mercê da própria sorte. Depois disto educou novos soldados contra as velhas favelas, na recorrente demonstração de impaciência em face dos mesmos vulneráveis, sempre bandidos. A regra é exterminá-los, até de helicópteros, como malfeitores, criminosos já ao nascer.

Assim não vai sobrar nem Hércules, nem Quasímodo. Só a planta e olha lá!

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