CREPÚSCULO DA LEI – XVIII*

É NO BRASIL: FANTASMAS E CAMPOS DE CONCENTRAÇÃO 

Em tempos sombrios, alguns fantasmas insistem em redimensionar sua jornada espectral e saem uivando em busca de reconhecimento em um passado inglório. E são muitos por aqui.

É sabido que em 1940, Himmler (Heinrich), o famigerado general alemão da tropa SS Gestapo, autorizou que antigos alojamentos alemães de Auschwitz fossem convertidos em campos de concentração. Depois disto vieram as atrocidades, mas isto não seria novidade por aqui.

Há fantasmas brasileiros bem anteriores. Sim, antes dos alemães já havia campos de concentração no Brasil, mais especificamente no Ceará e são datados de 1915 - com o mineiro Venceslau Brás na presidência do Brasil - e outros em 1932 - com o gaúcho Getúlio Vargas.  Sim e sins, fantasmas terríveis tais lugares.

Estes campos de concentração foram decorrentes de uma política discriminatória contra um inimigo (?) específico: o flagelado da seca. De fato, essa barbárie ocorreu entre irmãos brasileiros contra nordestinos mesmo, numa época de escassez e fome, o que levou a elite cearense às práticas torturantes em desfavor de uma grande massa de retirantes, os quais foram impiedosamente enclausurados pior que gado, antes do próprio Hitler.

Essa experimentação prévia de solução final se deu nas cidades de Fortaleza, Quixeramobim, Ipú, Cariús, Senador Pompeu e Quixadá, gerando uma população de aproximadamente 73.000 seres humanos nefastamente concentrados.

O mais famoso deles foi de o campo de Fortaleza, conhecido como Alagadiço e que até se tornou tema de livro (O Quinze, de Rachel de Queiroz, 1930). Correspondia a um medonho espaço de quinhentos metros quadrados, coberto de cajueiros que praticamente faziam o teto de 8.000 desgraçados fugidios da seca, em um espaço que deveria não ter nem 3.000 almas.

Era uma massa, mas era também um amontoado de retirantes, misturados entre homens, mulheres e crianças, não higienizados e promíscuos ensimesmados, de tal sorte que simbolizavam o enfeiamento tão temido pela elite pseudofrancesa de fortaleza de então.

Eram maltrapilhos que se vestiam em sacos e alimentavam-se de carne seca, farinha e rapadura em uma única vez ao dia. O cenário era estarrecedor com aqueles zumbis disputando carnes apodrecidas, às vezes em luta contra urubus. Mortes eram comuns, filhos desparecidos e prostituição desregrada em nefandos favores. Certo que fome não combina com moral cristã, mas um resto dela ficava a cargo de algumas caridosas senhoras domingueiras que por lá deixavam esporadicamente alguma coisa para se vestir ou comer.

Como se não bastasse – e nunca basta – potencializavam-se os saques, assassinatos, estupros e roubos, tudo em conúbio com doenças físicas e psíquicas de toda ordem e que levavam muitos ao suicídio.

No campo de concentração de Senador Pompeu, por exemplo, morreram mais de duas mil pessoas por conta da fome e da doença, todas enterradas em covas coletivas e rasas, em face do número constante, elevado e corriqueiro de óbitos.

Se estes campos de concentração ocorreram antes do nazismo, também durante ele – nazismo - houve outros por aqui, a partir de 1942, quando o Brasil rompeu relações com a Alemanha, Itália e Japão, países considerados do “eixo”. Outro fantasma.

Na época, nosso Ministério da Justiça se encarregou de providenciar campos de concentração para os inimigos do eixo. Só no campo de Pindamonhangaba (SP) foram confinados 136 alemães e no de Pouso Alegre (MG) 62, mas também havia os campos de concentração em Tomé-Açu (PA), Chã de Estevão (PE), Ilha das Flores (RJ), Guaratinguetá (SP), Oscar Schneider (SC) e até Ilha Grande (RJ).

Tem mais fantasma, mais recente.  Sobre 1964 (!), também poderia ser dito alguma coisa sobre os campos de concentração de Krenak - Resplendor (MG) - e da Fazenda Guarani - em Carmésia (MG), estruturados exclusivamente para povos indígenas. Mais de 100 deles, de diversas etnias e regiões do país, foram levados para tais lugares.

Ocorre são fantasmas que cobram tanto, e vão dando uma tristeza tão danada e tão grande que é melhor parar.

(*) Dedicado a Luciano Macedo, catador de papel.

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