CREPÚSCULO DA LEI – XVI*

SINÉDOQUE, PREVIDÊNCIA SOCIAL E MAMADEIRA ERÓTICA (DE NOVO)

Sinédoque é uma figura de linguagem que estabelece uma confusão estética no debate informal e, como todas as demais, tem a mera função dar fluidez ao diálogo e potencialidade simbólica às ideias. Se tomada pela origem grega, a palavra sinédoque vai significar “entendimento simultâneo” e é exatamente isto que ela pretende quando faz jogos de substituição de termos, por exemplo: O brasileiro é um malandro!,

Ora, nota-se claramente que se trata de uma frase de teor meramente simbólico, lúdico e própria para o debate meramente singelo e sem qualquer conotação científica, já os termos foram tomados por empréstimo na fluidez e são exemplificativos de uma mera brincadeira.

Pois bem. O brasileiro está diante de uma sinédoque: A Previdência está falida!

Esta frase só pode ser tratada como tal: Sinédoque. Não há outra conformação semântica para ela, exatamente pelo fato de ela não ter nenhuma contextualização científica que a comprove, logo não pode ser considerada com a seriedade com a qual se lhe atribui boa parte da mídia e os políticos que a defendem.

Fato é que a população está completamente alienada em termos dos números que envolvem o sistema previdenciário brasileiro. Como sempre ocorre nestes casos que envolvem as cifras da arrecadação e do orçamento, o eleitorado é excluído dos debates. A ideia de democracia por estas bandas é muita vaga e está simplesmente estruturada no obrigatório ato de votar.

A questão ganha maior gravidade no paradoxo midiático: A mídia deveria ser o instrumento educacional por excelência, formadora de cidadãos conscientes dos seus atributos e atribuições políticas mínimas, bem como aptos a se defenderem contra os abusos do Estado.

Ao contrário, convive-se com um aparato midiático em que – salvo raríssimas exceções – trabalha-se em favor do obscurantismo e da ignorância. Parece que tanto maior o alcance dos meios de comunicação, maior sua capacidade de produzir ignorância, e os resultados uma desinformação absoluta acerca dos problemas graves do país. Prova disso é a malfadada e maldita fake news da mamadeira erótica e do kit gay, responsáveis diretos pela decisão do último pleito eleitoral.

De qualquer forma, não é preciso ser um expert para duvidar da pseudo falência do sistema previdenciário. Basta tomar-se como referência a questão da DRU, que significa Desvinculação de Receitas da União e que permite ao governo federal se apoderar livremente de 20% dos tributos federais, cuja principal fonte está nas próprias contribuições sociais.

A DRU permite que o governo possa se utilizar das contribuições sociais – que seriam destinadas à Previdência Social (claro), à Saúde e à Educação – e desviá-las para qualquer despesa considerada prioritária (?), como o pagamento da dívida pública, verbi gratia (não precisa dizer mais nada). Trata-se de um mecanismo temporário, mas está em vigor desde dezembro de 2015 e a PEC 87/2015 - Proposta de Emenda Constitucional – estendeu-lhe o prazo até 2023.

Significa que a DRU é a prova cabal de que a Previdência não está falida, pois é exatamente nela e dela que o governo lança mão para tirar dinheiro e canalizá-lo para outras despesas. A Previdência está é mal gerida. Óbvio.

Na realidade, o governo está sendo pressionado pelos grandes conglomerados financeiros – o lado negro do capitalismo – para desvincular esta imensa massa financeira e capitalizá-la, adquirindo empréstimos se expondo em dívidas mediante taxas exorbitantes de juros que tais conglomerados pretendem lhe impor, ou seja, o mercado está extorquindo o governo, obrigando-o a contrair dívidas com a desculpa de evitar um retorno da inflação, já que o dinheiro parado e sobrando nos bancos significa prejuízo.

Ao que parece a tal reforma (?) da Previdência, leia-se capitalização forçada do dinheiro público, vai passar – se já não tiver sido aprovada quando da publicação deste texto - porque a maioria dos políticos eleitos também está pressionada pelo poder do capital. Como sempre, há muito dinheiro envolvido, e, quando o assunto é desta ordem, a população não é devidamente esclarecida, muito menos consultada.

Aliás, ainda sobre o paradoxo midiático, o que se faz é o entorpecimento da população mediante discussões estúpidas, supérfluas ou mesmo vazias, robotizando-a em twitters, facebooks, instagrams e outras ferramentas de mídia, que poderiam perfeitamente ter uma serventia mais compromissada com a politização séria dos cidadãos e cidadãs.

É o mínimo que se espera (va) de uma democracia.

 

(*) Dedicado aos parlamentares verdadeiramente preocupados com a democracia, com o artigo 195 da Constituição Federal e com os direitos e garantias individuais.

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