Coragem, porque noção...

Uma gíria tem feito sucesso entre a moçada ultimamente: “coragem, porque a noção passou longe”. Pois é, algumas pessoas são muito, mas muito corajosas mesmo, no entanto, a noção e a sensatez passam bem longe.  E não adianta bater na mesma tecla de que o povo, em especial o brasileiro, não estava preparado para a era digital, muito menos para o “boom” das redes sociais, que aconteceu em meados de 2012. A prova disso é que colocamos a democracia em risco constantemente e passamos dos limites, incontáveis vezes, pelo único propósito de aparecer nas redes sociais. Um completo desserviço a tudo que beneficia a comunidade. Mesmo não tendo opinião sobre determinado assunto, mesmo não entendendo o tema, nos impomos e queremos ser “experts” em tudo, mesmo que isso cause uma única reação: vergonha alheia. Paramos de evoluir, começamos a andar para trás e tudo isso porque nos tornamos um povo corajoso, mas sem noção.

A prova disso – no meio de milhares – é que, nesta semana, em Dores do Indaiá, adolescentes foram detidos depois de violar túmulo para tirar crânio pra fazer “selfie” e postar. Ou seja, a noção passou longe. Seguimos no caminhão sem freio, que desce uma ladeira, desgovernado. Não temos um caminho a seguir, um propósito. Não temos um ideal. Apenas seguimos sem rumo por aí. Acreditando cegamente que estamos certos o tempo todo, que somos o dono da razão, ou, quem sabe, do mundo. Fazemos tudo isso conectados. Em nome de quê? Em nome de quem? Quanto e o que vale uma foto na rede social? O que queremos? Estamos em busca de quê? Talvez estas sejam perguntas que nunca terão respostas. Talvez continuemos um bom tempo cheios de coragem, mas com noção zero, e, com isso, continuemos estacionados em um lugar que não é dos melhores para se estar.

É impossível falar sobre o uso desenfreado das redes sociais, sem lembrar de Umberto Eco, quando ele diz: “As mídias sociais deram o direito à fala a legiões de imbecis que, anteriormente, falavam só no bar, depois de uma taça de vinho, sem causar dano à coletividade. Diziam imediatamente a eles para calar a boca, enquanto agora eles têm o mesmo direito à fala que um ganhador do Prêmio Nobel”. Eco disse essas palavras em 2015, após uma cerimônia na Universidade de Turim. Isso foi pouco depois do “advento” das redes sociais. Ele estava certo. Por justamente não estarmos preparados para a era digital, causamos danos à coletividade. A Justiça brasileira, assim como o povo brasileiro, não estava preparada para o “boom” das redes sociais e para a coragem que ele daria às pessoas. O caminhão segue desgovernado. Não há punição.

Talvez, seguiremos durante um bom tempo corajosos, mas sem noção e causando danos à coletividade. Talvez continuaremos a trilhar caminhos escusos. Mas a mudança uma hora chegará, pois ela é muito mais do que necessária, e, querendo ou não, será questão de vida ou morte. Ou priorizamos a noção ou não conseguiremos mais viver em sociedade.

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