Contradições em depoimentos marcam rodada da CPI dos Áudios

 

Vereador interroga secretário Roberto Chaves sobre relação com blogueiro (Foto: Ricardo Welbert)

Ricardo Welbert 

Contradições em depoimentos marcaram ontem mais uma rodada de oitivas da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) aberta na Câmara de Divinópolis para analisar gravações telefônicas que envolvem diretamente o prefeito Galileu Machado (MDB) e membros do governo. Uma perícia atestou que não houve montagens nos áudios. Após os depoimentos prestados pela secretária municipal Administração, Orçamento e Informação, Raquel de Oliveira Freitas; e pelo secretário de Governo, Roberto Antônio Ribeiro Chaves, falou-se até em agendamento de acareação.

Raquel foi interrogada primeiro. Ela foi questionada sobre o decreto que Marcelo Máximo Resende, o Marreco, afirmou ter recebido dela como garantia de que seria nomeado o cargo de coordenador de Segurança Alimentar na Secretaria de Agronegócios em troca de silêncio em relação a supostos fatos que pretenderia denunciar à Câmara.

Conforme o Agora informou, uma das gravações telefônicas apresentadas por Marreco mostra Galileu dizendo a ele que poderia ficar tranquilo, pois não precisaria trabalhar quando fosse empossado na função pública.

Ao assumir o microfone destinado aos depoentes, Roberto Chaves foi questionado pelo vereador Edson Sousa sobre o fato de Marreco ter afirmado à CPI que não entende nada de agricultura e não sabe por que seria escolhido para um cargo na pasta de Agronegócios. Em um dos pontos mais inusitados da oitiva, Roberto respondeu que “não é preciso entender de tomate” pra ser nomeado.

Blogueiro 

O vereador Edson Sousa (MDB), que compõe a CPI dos Áudios mesmo sendo desafeto público do jornalista Geraldo Passos, editor do blog “Divinews” e um dos investigados pela comissão parlamentar, perguntou ao secretário se ele é amigo do blogueiro e se costuma telefonar para ele. A resposta foi “não” para ambos os casos.

A cada nova pergunta sobre sua relação com Passos, Roberto propôs narrar os fatos em ordem cronológica, para melhor compreensão. Disse que dirigiu o próprio carro até a casa de Marreco na noite de 23 de abril último levando Raquel e Geraldo.

Ao ser questionado sobre a legalidade nisso, justificou que não vê qualquer ilegalidade, pois eram apenas dois secretários municipais e um jornalista indo juntos a um compromisso, alegando que esse contato próximo com alguém da imprensa é legítimo, pois permite a divulgação de notícias em primeira mão. Uma forma de dar publicidade imediata aos atos do governo, defendeu.

— Mas eu não sabia o que a Raquel e o Geraldo queriam conversar com Marcelo. Eu estava lá apenas na condição de motorista e ouvinte, embora também secretário — comentou Roberto.

Quando o secretário disse que não sabia do decreto de nomeação, Marreco, que estava na sala durante o depoimento, riu bastante. Questionado pelo Agora, ele afirmou que o que o secretário havia acabado de dizer não é verdade.

Em seguida, o secretário foi questionado sobre quem entregou o decreto a Marreco. Ele respondeu não saber dizer.

Edson Sousa voltou a citar Geraldo Passos, afirmando que a CPI precisa saber o motivo pelo qual um dos áudios vazados por Marreco mostram o blogueiro intermediando a nomeação dele ao cargo.

— Como pode ninguém da Prefeitura procurar o Marreco, mas o blogueiro procurar em nome do governo? — questionou.

Roberto voltou a dizer que não sabia das conversas gravadas por Marreco com Galileu e Geraldo Passos. Afirmou não concordar com os termos que foram usados por eles nos trechos gravados e ressaltou que não estava com eles quando disseram o que mostram os áudios.

— Mas a possibilidade de que Marreco ocupasse cargo público na Prefeitura sem precisar trabalhar é muito remota, pois todo servidor precisa marcar presença no ponto para receber. Existe até uma equipe composta especificamente para fiscalizar o ponto — ressaltou.

Após essa negativa, Edson Sousa propôs uma acareação entre Roberto e Marreco para ver como reagem ao serem desmentidos frente a frente.

Prefeito ausente 

Convocado para a rodada, Galileu não compareceu. De acordo com o diretor de Comunicação do governo, Evandro Araújo, o prefeito usou uma prerrogativa de poder garantida no Código de Processo Civil que permite que ele seja interrogado na sede da prefeitura. A data ainda não foi definida

Rodada seguinte 

Os integrantes da CPI se reunirão amanhã para analisar o conteúdo obtido ontem e decidir quais serão as próximas etapas. Além de ouvir Galileu na prefeitura, também ouvirão Geraldo Passos e o procurador federal Lauro Coelho.

Entenda o caso

No dia 24 de abril Marreco usou a tribuna livre na Câmara e denunciou uma suposta oferta ilícita de cargo feita pelo prefeito a ele. O ex-aliado de Galileu entregou cópias de um CD com supostas gravações de telefonemas feitos entre ele e o prefeito e entre ele e Geraldo Passos.

Nos áudios (ouça abaixo) Galileu diz que Marcelo ficaria na “coordenadoria” e que ele não precisaria trabalhar. Além dos áudios, Marreco disponibilizou a cópia do decreto de sua nomeação.

Além do procedimento preparatório instaurado pelo MP, no dia 25 de abril, para investigar a oferta do cargo, a Câmara instaurou a CPI para apurar os áudios. 

Ouça a íntegra dos áudios divulgados

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