Com a palavra, ele

 Leila Rodrigues 

A primeira passou apressada, usava um vestido florido e um decote elegante. Carregava muitas sacolas e falava ao celular ao mesmo tempo. Gesticulava, repetia, ajeitava as sacolas, tudo de uma vez. Parou ao meu lado à espera do sinal abrir, pude ouvir que ensinava o filho com as lições de casa. O assunto era matemática. Com a naturalidade de uma criança, olhou para mim e me perguntou quanto era 7x8. Fiquei tão perplexo que não consegui responder. Ela sorriu e disse que também não. Atravessou a rua apressada e se foi.

A outra passou perfumada, elegante, bem vestida, carregava uma pasta. Parecia uma executiva, ou quem sabe da área de direito? Era loura, bem cuidada e moderna. Carregava também uma sacola; pães, cebola, acho que um detergente também. Fiquei tão intrigado com o detergente que quis perguntar alguma coisa. Chamei-a de doutora. Foi quando ela olhou para mim e agradeceu. Deixou seu perfume no ar e atravessou apressada. E eu continuei minha caminhada encantado com o sorriso dela. 

De repente, a outra chegou  correndo. Não era tão jovem, mas tinha frescura no olhar. Cabelos presos com a caneta, livros em uma das mãos, um sanduíche na outra. Parou para atender o celular e me pediu para segurar seu livro por um instante. “Só um minuto, é muito importante”, disse ela toda sorridente. Atendeu. Pelo visto era a mãe. Perguntou se o dinheiro havia chegado. Sorriu para a resposta, certamente afirmativa da mãe, me agradeceu e se foi. E eu teria ficado ali segurando seus livros até amanhecer. Mas continuei caminhando.

E lá vem a outra. Um filho no colo e o outro segurando seu vestido. Quanta beleza! Ela mostra no rosto singelo, sem maquiagem alguma, a sua felicidade em cuidar daqueles dois. Um deles chora, o outro pede um picolé. E ela sabe lidar com aquilo tudo sem perder a doçura da maternidade. Ofereço ajuda. Para minha surpresa, ela aceitou. Pediu que eu segurasse o pequeno para que ela ajeitasse a bolsa. Seu pequeno era inquieto, mal esperei a hora de devolvê-lo e segui minha caminhada pensando em como ela conseguia cuidar daqueles dois pestinhas ao mesmo tempo.

Até que me deparo com ela, aquela que iria coroar o meu percurso. Aquela que fecharia com chave de ouro a minha jornada matinal. Sob a luz do sol, seus cabelos grisalhos pareciam brilhantes. Ela tem uma certeza no olhar que concluo que ela sabe algo que ninguém mais no mundo sabe. Ela tem naturalmente o poder. O poder da maturidade, o poder da experiência, o poder acumulado de todas as outras que passaram por mim ao longo da minha caminhada.

Ela me recebe com um sorriso. E pergunta por aquele meu projeto que até eu já havia me esquecido. Fala com tristeza do marido que se foi, pergunta pelos meus filhos e me olha com a doçura de minha mãe. Cada ruga no seu rosto conta uma história, uma superação, um aprendizado a mais na escola da vida.

Decido não caminhar mais.

Como pode alguém acumular em si tantas habilidades? Como pode alguém pensar em tudo e em todos dessa forma? Como pode um coração caber tanta gente? Como pode, num único ser, coragem e medo coexistirem em harmonia?

Eu que já corri o mundo, já estudei e já experimentei quase tudo nesta vida; eu que me considero um cara vivido, curvo-me à sua grandeza  e me declaro um aprendiz. E no silêncio da minha pequenice disfarçada de grandeza, faço a Deus um pequeno pedido: “Quisera eu poder nascer de novo um dia, com a alma feminina, só para ter a chance de protagonizar tamanha maestria”.

leilarodrigues-palabras.blogspot.com.br

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