Coiteiros

COITEIROS

Inocêncio Nóbrega

Da ineficiência dos governos, nas ações sociais e aplicação das leis, alinhadas a poderosos latifundiários, jungidos a interesses escusos, em detrimento às necessidades das populações, lamentável e propositadamente inculturadas, em fins do século XIX à década de 1930 surgem, nos sertões do Nordeste, grupos armados, jagunços. O mais famoso deles, comandado pelo pernambucano Virgulino Ferreira da Silva, apelidado de “Lampião”. Do assassinato de seu pai, pela polícia, acusado de roubo de gado, em virtude da morosidade da Justiça, decidiu vingar, perlustrando por cinco estados, da Bahia ao Ceará, aterrorizando fazendas e lugarejos, extorquindo, fazendo das autoridades seus reféns, cometendo uma variedade de violências, não aceitando ajuntamentos rivais, desestabilizando a ordem pública. Não foram poucos os enfrentamentos com a polícia.

 Correligionários do padre Cícero, no combate à Patriótica Coluna Prestes, ou fazendo acordo com adversários ao presidente João Pessoa, em Princesa Isabel, deitam dúvidas quanto ao seu papel original de revisionismo da estrutura jurídica da época. Para sucesso de suas tiradas aliciavam chefes políticos locais e fazendeiros bem sucedidos, conseguindo proteção nos momentos de perseguição e perigo, instalando-se, por vezes, em esconderijos seguros. Tanto os ataques que promoviam como as defesas eram sabiamente estudados.  

Havia uma rede de proteção, que lhes dava a desejada cobertura, os chamados coiteiros, bem romanceados, em livro desse nome, por José Américo de Almeida. No enredo, Dorita se envolve num triângulo de amor entre três personagens masculinos, vindo a ser morta.  Como a história também é narrada por analogia, o coito que se faz ao rei, sem coroa, apesar de uma forma mais civilizada, existe, coletivamente, nos ambientes refrigerados da política e da administração pública brasileira, fácil de identificação. Evidentemente sem ligações de propósitos com a maioria de seus companheiros e de parcelas de uma sociedade aflita, que não aceita ultrajes aos direitos conquistados.

Pelo rosário de crimes cometidos, particularmente sanitários, o rei se esconde nas frestas rochosas da lei, mobiliza falanges apoiadoras, estimulando-as ao embate, na facilitação de armas, contra as volantes democráticas, as quais resistem à prática do coito.  Acredita que não haverá o trágico final, na expressão material do termo, como se deu em 1938, no Sergipe.  Não torcemos pela cabeça na bandeja, como assim fizeram os justiceiros da ditadura. Nosso sentimento de futuro é que tudo ocorra dentro das normas legais e do direito.  Mas abolir o coito oficial é nossa bandeira.

Jornalista

inocnf@gmail.com

 

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