Certeza da impunidade

Editorial

A tecnologia chegou, a sociedade evoluiu, isso é fato. Aos seres humanos cabe apenas aprender a conviver no coletivo a cada mudança, a cada evolução, da melhor maneira possível, prezando sempre pelo princípio do “o meu direito termina quando o do outro começa”. Por mais que muitas pessoas sintam saudades dos velhos tempos, em que não existiam as telas, em que não existia essa enxurrada de informação, a verdade é que esse tempo não volta mais. Já dizia o pensador Leon C. Megginson: “não é o mais forte que sobrevive, nem o mais inteligente, mas o que melhor se adapta às mudanças”. Sem que a humanidade percebesse, tudo foi mudando aos poucos. É inegável que as redes sociais, junto à tecnologia, veio para ficar, e a tendência é que tudo se intensifique ainda mais. A perspectiva é que mais pessoas tenham acesso ao mundo virtual, e a cada dia tenham mais voz – mesmo sendo ela equivocada. 

Se, por um lado, é fato que o mundo mudou, e a nós, seres humanos, cabe apenas nos adaptarmos da melhor maneira possível, é verdade também que a atualidade por muitas vezes nos faz querer um pouco dos princípios – como respeito, responsabilidade e empatia – tidos como primordiais nos tempos passados. Como já abordado neste mesmo espaço, a sociedade do espetáculo, na qual vivemos hoje, deixou tudo isso para trás. O próximo pouco importa. A ordem é apenas falar. Não importa as consequências das palavras e dos seus atos. Não importa como tudo isso ecoará no futuro, o importante é ter voz. O respeito, a responsabilidade e a empatia, a sociedade do espetáculo deixa para depois. 

O que mais chama a atenção nisso tudo é que muitas vezes esse tipo de comportamento vem daqueles que deveriam dar exemplo e que arrotam “santidade” nas redes sociais, nos trazendo também o título da hipocrisia. Gritam aos quatro cantos do mundo que são honestos, ditam regras, não aceitam críticas, opiniões, mas seguem com os seus personagens de santos. Sem qualquer pudor, seguem suas vidas tendo a certeza da impunidade, afinal, estamos no Brasil. Aqui é o país onde tudo pode, poucos são punidos. Talvez venha daí a descrença do povo e a busca constante por heróis que não existem. Se, por um lado, a tecnologia nos trouxe avanços enormes, por outro trouxe também estragos irreparáveis, aliada à impunidade cultural que existe no Brasil. Pessoas falam, agridem, agem como se não houvesse justiça – muitas vezes, infelizmente, não há. 

Os mais sensatos seguem com a esperança de um dia encontrarem justiça, bom senso, responsabilidade e empatia daqueles que são chamados representantes do povo – de que comecem a exercer de fato a função que lhes cabe, além de começar a dar exemplo. Os mais limitados contentam-se com a situação, afinal, um discurso bonito talvez seja o suficiente, mesmo que atos e fatos mostrem o contrário. Sem fazer juízo de valor de quem está certo e quem está errado – pois não é este o nosso papel – hoje podemos falar que definitivamente a sociedade brasileira não estava preparada para evoluir, pois evolução exige muito, tendo como principais pilares a justiça e respeito.

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