Centenário de uma liderança

Raimundo Bechelaine - Centenário de uma liderança  

O infausto evento que nos envolve, desde o ano passado, não é favorável para comemorações e festejos. As limitações impostas pelo enfrentamento desta pandemia, em que ainda nos encontramos, continuam tendo consequências. Uma delas é a fixação no presente dos acontecimentos. De repente, nossa própria sobrevivência, os mais alguns anos de vida, que todos sonhamos ter, foram colocados em risco.  Nossa morte, que sempre imaginamos num futuro a perder de vista, apresenta-se à nossa porta. Daí que se tornou necessário estar atento ao imediato, ao agora, aos cuidados e às informações de cada dia. Fatos e vultos do passado, por grandes ou significativos que tenham sido, foram relegados para tempos melhores.

Porém, a esta altura deste segundo ano pandêmico, até pelo cansaço desse presente tão desagradável ou pela ilusão afoita de que o pior já passou, será interessante lançar olhares em outras direções. Certamente que nos fará bem ao espírito. Distrairá nossas mentes deprimidas e nossos ouvidos cansados e atemorizados.  

Neste ano de 2021, transcorre data que exige referência: o centenário de nascimento de Oscar Dias Corrêa, o líder regional que mais alto se elevou no cenário nacional. Nasceu em Itaúna, em 1º de fevereiro de 1921. Há exatos 100 anos, portanto. Fez o curso primário na terra natal e continuou os estudos no Colégio Mineiro, em Belo Horizonte. Já se destacava como estudante. Graduou-se em direito na então Universidade de Minas Gerais. Foi deputado estadual e federal em várias legislaturas e secretário estadual da Educação. Tornou-se a maior liderança política do Centro-Oeste mineiro, por muitos anos. 

Nas lides partidárias, era membro destacado da União Democrática Nacional (UDN). Na oratória mostrava, por vezes, seu talento de polemista. Era contundente contra os adversários e as ideias opostas às suas. O romance "Brasílio', que publicou em 1968, é uma caricatura fortemente sarcástica do adversário Benedito Valadares. Apoiou convictamente o golpe civil-militar de 31 de março de 64. Dois anos depois, estava desiludido com a então chamada "Revolução". Na tribuna da Câmara dos Deputados, fazendo críticas à condução do governo, pronunciou um arrebatado e corajoso discurso, a que deu o título: "Por que me retiro da vida pública" (Cfr. Anais da Câmara Federal, 23/03/1966). No entanto, devido ao reconhecimento que aureolava o seu nome, o próprio governo militar o indicou, anos depois, para ministro do Supremo Tribunal. Mais tarde, seria ministro da Justiça, no governo de Sarney. Era um homem culto, ótimo orador, escritor talentoso. Em 1989, chegou à Academia Brasileira de Letras, na qual ocupou a cadeira nº 28, que tem Manuel Antônio de Almeida por patrono. 

Foi um exemplar de uma dinastia, hoje extinta, de exímios políticos brasileiros e, especialmente, mineiros. A trajetória deles deve ser objeto de memória e de estudo crítico. jorababech@gmail.com

 

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