Câmara tem críticas ao fundão e defesa de delegados da cidade

Matheus Augusto

Os vereadores voltaram a se reunir ontem, na Câmara, para a votação de projetos. Dentre as aprovações estão: o atendimento preferencial de pessoas com fibromialgia, o Dia de Conscientização ao Tratamento da Fibromialgia, a construção de banheiros públicos em parceria com a iniciativa privada e a obrigatoriedade de locadoras de imóveis informarem sobre a existência ou não de acessibilidade para pessoas com deficiência. O encontro também foi marcado por discursos contrários ao fundo eleitoral, à defesa dos delegados que pediram exoneração após operação do Ministério Público (MP) e Corregedoria da Polícia Civil, e sobre a possível omissão do Poder Público diante do desabamento no Cemitério da Paz neste ano.

Crise em tempos de fundo bilionário

Último a se pronunciar, o vereador Matheus Costa (CDN) aproveitou seu tempo de fala para criticar os recursos utilizados pelos partidos para o financiamento de campanhas eleitorais.

— Hoje eu vou falar sobre o fundão eleitoral, esse fundão vergonhoso que acabou de ser depositado nas contas dos partidos do nosso país. É uma farra. O presidente Jair Bolsonaro [sem partido] disse que pode não ter dinheiro pagar o auxílio emergencial, as despesas da guerra contra a covid-19, mas infelizmente, por força de lei, do sistema, ele teve que disponibilizar R$ 2 bilhões para os partidos políticos — explicou.

Para o vereador, apesar das brigas, os partidos se unem em prol “dessa farra com seu dinheiro, pagador de impostos”, montante que “poderia fazer muita diferença na guerra contra a covid”. 

— Que diferença esses números poderiam fazer para salvar vidas, e não pagar santinhos, advogado, contador de campanha, dar dinheiro para malandro, usar jatinho,  helicóptero, enquanto a  população tem dificuldade de ter acesso a produtos básicos, para sobreviver, não tendo acesso ao auxílio emergencial como deveria ter, pois é uma obrigação, é o dinheiro da população voltando para a população — destacou.

O vereador detalhou a distribuição dos recursos por partido. O Partido Trabalhista (PT) e o Partido Social Liberal (PSL) devem receber, por exemplo, R$ 200 milhões e R$ 193 milhões, respectivamente d são os dois maiores beneficiados pelo fundo. 

Durante seu discurso, ele disse entender a necessidade da existência de partidos para a oferta de estrutura aos candidatos, mas prometeu questionar seu partido sobre a aplicação dos recursos. Para Matheus, com bons salários, os políticos deveriam bancar suas próprias candidaturas, pois, enquanto as siglas possuem salas com o melhor do conforto, a população precisa esperar nos bancos desconfortáveis das Unidades de Pronto Atendimento (UPAs) pelo país. 

Costa ainda citou investimentos que poderiam ser feitos com os R$ 2 bilhões: 28 mil respiradores, seis milhões de testes rápidos, 100 hospitais de campanha ou mais de três bilhões de kits de álcool em gel e máscara.

— É um escárnio numa guerra contra a vida não ter dinheiro para auxílio emergencial para as pessoas comprarem comida, mas ter para encher os cofres dos partidos para serem gastos da maneira que nós sabemos, com muito luxo e ostentação, tentando ludibriar a população — finalizou.

Ele espera que este seja o último ano do “fundão da vergonha”.

Investigações sem alarde

Líder do governo na Câmara, Eduardo Print Jr. (PSDB) é tradicionalmente o último a se pronunciar, pois, após ouvir os discursos dos colegas, quando necessário, apresenta os posicionamentos e respostas do Executivo. Na reunião desta semana, no entanto, ele foi o primeiro a falar, em apoio ao ex-coordenador-geral da Superintendência de Informações e Inteligência da Polícia Civil, Ivan Lopes, e o ex-delegado regional, Leonardo Pio. Ambos solicitaram exoneração de seus cargos após a operação “One Way” na última sexta-feira, 5. 

A investigação, iniciada há sete meses e conduzida pelo Ministério Público e pela Corregedoria da PC, busca provas contra policiais civis, empresários, laranjas e fábricas, suspeitos de fraudes no credenciamento de estampadoras veiculares. Os crimes envolvem cartel, associação criminosa, lavagem de dinheiro e outros. 

O vereador citou as homenagens recebidas pelos delegados pela Câmara, agradeceu pelo trabalho prestado e prestou solidariedade a eles.

— Não quero fazer aqui julgamento de valores, do ato, a ação, a denúncia que foi colocada, mas a forma como a Polícia Civil agiu investigando esses dois delegados da cidade, que eu confio e acredito nas suas inocências, eu não posso concordar — argumentou.

Para Print, o modo como foi conduzida a operação colocou, sem necessidade, a imagem dos delegados em xeque.

— Mesmo que se coloque um trio elétrico na rua dizendo que os dois são inocentes, dificilmente a reputação, o coração e o semblantes serão os mesmos. (...) Não sou eu quem vai condenar ou apurar, mas a forma com que foi tratado dois homens que dedicaram suas vidas inteiras à Polícia Civil, eu não posso concordar — afirmou.

Por fim, ele pontuou que é momento de levantar a cabeça, pois “quem não deve não teme”.

— Se não provarem nada, devastaram duas famílias maravilhosas — concluiu.

Outros vereadores também prestaram solidariedade aos delegados. Adair Otaviano (MDB) disse esperar que, ao fim das investigações, eles consigam provar os homens de caráter que são. Janete Aparecida (PSC) defendeu a apuração dos fatos, mas pediu mais cuidado ao conduzir as investigações.

— Para destruir nossa reputação são cinco segundos, mas para reerguer não tem ninguém que faça — ressaltou.

Quem também falou sobre o assunto foi César Tarzan (PSDB).

— A gente fica triste de ver a realidade da Justiça no nosso país. Primeiro as pessoas são julgadas e condenadas. Toda denúncia tem que ser feita uma investigação, e as redes sociais, a mídia condenam, julgam, essas pessoas, jogam o nome na lama e depois de anos, quando resolve a situação, ninguém fala mais do assunto, e às vezes a pessoa foi vítima de uma denúncia falsa de crime e fica por isso mesmo — pontuou.

Raimundo Nonato (Avante) também fez coro à fala dos colegas, pois “quando as pessoas levantam injúria, isso é terrível, isso destrói famílias”. Por fim, Dr. Delano (MDB) classificou a exposição dos delegados como uma ação difamatória.

— Eles podem até conseguir voltar, mas toda vez que eles passarem na rua vão ser os delegados que roubaram, dificilmente eles vão pegar a reputação deles de volta — falou.

Ele ainda pontuou que a mesma situação, por vezes, acontece com os vereadores.

— Primeiro eles pegam e escracham o vereador nas redes sociais; isso quando não é o próprio colega vereador. (...) Quais dos 17 vereadores aqui têm a capacidade de apontar o dedo? Nenhum. Atrás de mim eu tenho um mar de pecados — refletiu.

Desabamento

Em seu pronunciamento, Roger Viegas (Republicanos) tratou do desabamento do muro do Cemitério da Paz, em 1º de fevereiro deste ano. Para o vereador, já passou da hora de uma decisão definitiva sobre o caso.

— Várias e várias reuniões aconteceram e nada foi resolvido. Nada. Um verdadeiro descaso, um jogo de empurra-empurra entre a Prefeitura e a construtura, demonstrando uma total falta de desrespeito e despreparo com esse familiares, que estão com o sentimento de luto eterno. (...) Já são cinco meses e ninguém se manifesta, ninguém fala mais nada, deixaram cair no esquecimento — afirmou.

Ele relatou ter sido abordado por familiares que têm parentes enterrados no local, que, com o desabamento, tiveram seus restos mortais soterrados.

— [Eles] me informaram que a Prefeitura está se escondendo atrás da pandemia para não apresentar nenhum plano de ação. E, por isso, os familiares marcaram para o próximo sábado uma manifestação através de uma carreta que sairá da porta do cemitério, a partir das 10h — contou.

A intenção dos manifestantes, segundo Roger, é chamar a atenção para a omissão do Executivo para o fato não cair no esquecimento.

— É inadmissível eles continuarem com essa angústia e tamanho sofrimento — destacou.

Por fim, ele cobrou do presidente da Câmara, Rodrigo Kaboja (PSD), a nomeação de uma comissão para acompanhar o caso e buscar soluções.

Em nota, a Prefeitura pontuou que, por meio da Secretaria Municipal de Serviços Urbanos e a Procuradoria-Geral do Município, tem realizado todos os “esforços no sentido de se preservar ao máximo os restos mortais que ameaçavam ruir depois do desabamento, exumando-os e dando-lhes acondicionamento digno”. O Executivo também cita a ação cautelar movida com o intuito de preservar a memória do ocorrido e instruir a propositura de eventual ação judicial para a cobrança de responsabilidades. 

— Poucos dias após o desabamento do muro do cemitério, foram iniciadas conversações com os familiares dos sepultados no referido cemitério, que posteriormente passaram a contar com acompanhamento jurídico, em tudo objetivando a entabulação de acordo — explicou.

A Administração também explicou que os familiares formaram uma associação e, conjuntamente, apresentaram uma ação civil pública. Os membros ainda aguardam uma resposta sobre uma ordem liminar.

— Vale dizer: o caso em questão se encontra "sub judice" e qualquer intervenção no Cemitério da Paz que tenha a ver com o aludido desabamento precisa de prévia autorização judicial. A Administração municipal se mantém aberta ao diálogo e almeja, o quanto antes, a formatação de um acordo que envolva todas as partes ligadas ao processo. A remoção dos restos mortais que se encontram em terreno de obra particular vizinha ao cemitério depende, pois, da concordância dos membros dessa Associação ou, quando não, de permissão judicial — finalizou.

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