Câmara se omite

A reunião de ontem da Câmara de Divinópolis foi para encher de vergonha qualquer cidadão consciente. Apenas seis vereadores se dignaram a assinar o pedido de Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) para investigar as gravações — uma delas trazidas à tona durante reunião do próprio Legislativo — com supostas conversas comprometedoras envolvendo até mesmo o prefeito Galileu Machado (MDB).

Da parte do Agora, fez-se o básico do jornalismo. Ao tomar conhecimento da gravação, evitou julgar o denunciante e tratou de levantar todas as informações possíveis. Conseguiu cópia e revelou aos seus leitores, antes de qualquer outro veículo de comunicação fazê-lo, para que eles mesmos tirassem suas conclusões. Nas duas reportagens feitas na terça e na quarta, este diário fez o que todos deveriam ter feito desde o começo: apurar os fatos e dar voz a todos os envolvidos.

A população divinopolitana reagiu incrédula. A cada gravação, multiplicaram-se os pedidos para investigação. Frise-se bem: investigação, e não condenação. Pelo menos não ainda.

No entanto, do lado da Câmara, a omissão se mostra mais grave até mesmo do que os fatos envolvidos nas gravações. Uma decepção. E os argumentos usados por aqueles que se recusaram a cumprir seu papel de investigar são inacreditáveis.

Ouça a conversa que Marcelo Máximo afirma ter gravado com Galileu
 

O vereador Delano Santiago (MDB), por exemplo, optou por desqualificar o denunciante. Essa é a tática geralmente usada por quem não consegue contestar a denúncia em si. Disse ainda ser necessário comprovar a autenticidade das gravações antes de abrir a CPI. Ora, mas a comissão não seria exatamente para investigar?

Se há dúvida sobre a veracidade, a Câmara poderia, por meio da CPI, pedir uma perícia. Se fossem falsas, que a acusação se revertesse contra o acusador. Porém, é preciso atenção a um detalhe: nenhum dos ouvidos até o momento veio a público desmentir a autenticidade dos registros.

Kaboja (PSD), líder do governo, seguiu pelo mesmo caminho de Delano: desqualificar o denunciante. O que não está explicado é: por que a Câmara decidiu se omitir de investigar os fatos narrados nas gravações? Há alguma razão não dita em público pelos vereadores? Há algo mais por trás disso tudo?

Nunca é demais lembrar que vereadores devem representar o povo que os elegeu. No entanto, ontem a maioria mostrou que está comprometida mesmo é em salvar o governo Galileu, seriamente abalado pelas gravações.

Da parte da própria Prefeitura, uma nota de esclarecimento que não esclarece. Tenta lançar suspeitas sobre as gravações, mas ao mesmo tempo tenta explicar por que o prefeito teria dito para o ex-aliado Marreco de que não precisaria trabalhar.

Um ponto não é explicado pela nota: que papel é esse exercido pelo editor do “Divinews”, Geraldo Passos, para poder tratar de nomeações no governo Galileu?

Juntos, a incapacidade da Prefeitura de explicar e a omissão da Câmara revelam muito sobre o estado atual da política de Divinópolis. É um paradoxo: mas quando a Câmara deixa de agir, diz muito mais sobre si do que se fizesse alguma coisa.

Um dia para apagar da história do Legislativo e uma mancha da carreira dos vereadores que decidiram se omitir de cumprir o dever de fiscalizar.

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