Câmara convoca responsáveis pelo transporte público para reunião de emergência

Motivo é aglomeração nos coletivos, mas consórcio rebate; vereadores ameaçam travar pauta caso academias não reabram

Paulo Vitor Souza

As condições enfrentadas pela população no transporte público municipal voltaram a ser pauta da reunião na Câmara. Ontem, o assunto inicial foi o fechamento das academias, determinado pela Prefeitura seguindo as regras do programa Minas Consciente para reabertura das atividades comerciais. 

Em uma ação inédita, o Legislativo condicionou a continuidade de votações das pautas à abertura imediata das academias. O vereador Dr. Delano (MDB), integrante da Comissão de Saúde, apresentou ofício assinado pelos 17 parlamentares, que solicitam à Prefeitura que vá até o governo estadual negociar a reabertura dos estabelecimentos.

— A partir da próxima reunião, nós estamos sugerindo o travamento da pauta, enquanto o senhor [prefeito Galileu Machado] não abrir todas as academias. O prefeito tem que ter pulso (...), a Comissão de Saúde exige, não está pedindo, está exigindo que as academias sejam abertas (...), são poderes independentes — sustentou.

Transporte público

Recheado de discursos inflamados e com direito à convocação de autoridades para debater o problema dos ônibus, o encontro do Legislativo sinalizou a pressão popular em relação à lotação das linhas que realizam o transporte municipal. Quem deu início ao conjunto de críticas foi Carlos Eduardo Magalhães (Republicanos), que declarou estar comprometido com a população em relação aos ônibus que prestam serviço na cidade. Acatado pelo presidente da Casa, Rodrigo Kaboja (PSD), partiu dele o pedido de convocação de representantes do Consórcio TransOeste, Sindicato dos Trabalhadores do Transporte, conselhos  e Prefeitura para reunião de emergência sobre o assunto.

— Se não resolver este problema eu estou me colocando à disposição, para usar de minha articulação. Eu vou até Brasília, mas nós vamos dar uma solução, eu vou até o presidente, mas este problema da TransOeste vai ter que ser resolvido. Se não se resolver na esfera municipal, estou aqui me comprometendo com a população de Divinópolis a ir a Brasília (...), a população já chegou no limite  —  disse. 

Ainda mais duro nas críticas, o vereador Roger Viegas (Republicanos) questionou o novo decreto municipal, que levantou dúvidas por causa da imprecisão na determinação da porcentagem de passageiros que os ônibus poderiam transportar. Roger Viegas entrou com pedido na Casa para sustar os efeitos do decreto municipal.

— Vimos nos últimos dias este decreto infeliz que o prefeito Galileu assinou, acredito que baseado em uma pressão. Acredito que o prefeito não tenha tido má-fé, mas foi mal assessorado, quando o decreto é, no mínimo, imoral — falou.

O decreto citado por Viegas é o de número 13.888, que não deixa claro a quantidade máxima de passageiros sentados ou não dentro de cada ônibus. De acordo com Roger, a norma permite que as linhas transitem com mais passageiros em pé.

— Este decreto permite que os coletivos andem mais cheios, já que estão andando numa nítida forma de privilegiar o Consórcio TransOeste, sem se preocupar com nenhum risco que a população esteja correndo —  destacou Viegas, que apontou dupla interpretação no artigo que dispõe sobre quantidade de usuários nos ônibus.

—  A Secretaria Municipal de Trânsito e Transporte (Settrans) não consegue nem ter o poder de fiscalização para multar, porque vão dobrar este número de passageiros, ou triplicar, dependendo da interpretação. Por isso, para combater essa atrocidade que estão impondo à população, protocolei aqui nesta Casa o decreto legislativo 004/2020, sustando os efeitos do atual decreto vigente — ressaltou.

 

Prefeitura

Com a convocação do presidente da Câmara, a Prefeitura deve enviar algum representante da Settrans à reunião de emergência que ficou marcada para a próxima terça, 18, às 14h. Rodrigo Kaboja também solicitou a presença dos sócios do consórcio de transporte.

A reportagem conversou com o secretário de Trânsito, Marcelo Augusto Santos. Perguntado se a gestão municipal teria algum plano para mitigar a aglomeração no transporte, o secretário defendeu que a lotação acontece em horários de pico. 

— A quantidade de passageiros por ônibus tem sido um pouco maior durante os horários de pico, entre 16 e 19h. Nestes horários, a secretaria de trânsito montou uma estratégia para reforço nas principais linhas de maior fluxo de passageiros. As informações repassadas pelo vereador têm cunho político. Estamos também com fiscais no interior dos ônibus para multar as empresas e repassar as informações à secretaria e recompor a quantidade de ônibus suficientes para atender a toda população. Da mesma forma, temos o telefone de WhatsApp 3222-1102. A população tem reclamado bastante da redução de linhas e horários. Ao contrário do que parece, hoje o sistema de transporte está conduzindo menos de 60% do total de passageiros que usava os ônibus antes da pandemia —  respondeu.

A reportagem também perguntou se a Prefeitura estuda alguma medida em relação ao consórcio. Marcelo Augusto repassou ao cidadão a responsabilidade de, segundo ele, se programar melhor e evitar as aglomerações nas linhas.

—  Os ajustes são feitos diariamente, com reuniões com as empresas. Várias medidas preventivas foram adotadas desde o início da pandemia, como higienização dos ônibus em todas as viagens, álcool em gel no interior, e, agora, o aplicativo Fale Bus. Nele o cidadão visualiza qual o ônibus está mais próximo, o tempo de duração dele até o seu ponto, bem como quais ônibus estão vindo na sequência. Assim, o usuário pode se programar melhor e evitar aglomerações no interior dos veículos —  falou.

A reportagem questionou ainda se na visão da pasta todas as ações estão sendo implementadas para evitar aglomeração, o secretário informou que as gestões são feitas diariamente e de acordo com o fluxo de passageiros. 

Consórcio 

A reportagem também ouviu o diretor executivo do Consórcio TransOeste, Felipe Carvalho. Perguntou  se a empresa tem algum plano para acabar com a aglomeração. Ele disse que o consórcio está higienizando diuturnamente todos os ônibus da sua frota de maneira profissional. 

— Álcool em gel está sendo disponibilizado nos ônibus como poucas cidades do país. Os ônibus, segundo estudos científicos, têm a troca de ar no ambiente 60% maior que um supermercado ou qualquer outro estabelecimento. Existem três exaustores além das janelas abertas com o movimento do veículo que facilitam a troca de ar — explicou. 

 De acordo com Felipe, o ônibus é um ambiente seguro, por isso, há baixíssima contaminação dos trabalhadores. Afirmou ainda que não existe superlotação,  apenas  barulho de quem quer fazer populismo em um momento de colapso do sistema. 

O diretor do consórcio explicou também que os motoristas são orientados a agir em caso de aglomeração nas linhas. 

— São orientados a não parar nos pontos se estiver com sua lotação completa. Recebem mensagens nos painéis dos veículos com esta orientação. Mas isso ocorre muito pouco. Os ônibus estão conseguindo atender a população devidamente — argumentou. 

Felipe Carvalho continua dizendo que a pandemia foi uma novidade para todos. Segundo ele, no início se sabia muito pouco e, com o tempo e com os estudos científicos se aprimorando, as cidades vão se adequando às suas necessidades. 

— O Brasil inteiro foi se adequando quanto às normas de lotação. Hoje, Belo Horizonte, Rio de Janeiro, São Paulo, Governador Valadares e tantas outras cidades flexibilizaram os passageiros em pé devido a ser seguro e necessário — revelou.  

Para finalizar, Felipe Carvalho alegou que a situação das empresas é a mais difícil de sua história. Conforme ele, houve uma recuperação de apenas 10% dos passageiros do início da pandemia. 

— O comércio abriu, mas o passageiro ainda não voltou. E o tempo que está durando essa fase intensifica o problema. O poder público terá que subsidiar o transporte para ele não parar — sintetizou. 

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