Cabeças cortadas

Domingos Sávio Calixto - CREPÚSCULO DA LEI – XCVIII

Cortar a cabeça do inimigo significa sua destruição definitiva. Trata-se do signo maior de aniquilação do adversário já demonstrado nas mitologias – desde Medusa –, passando por episódios bíblicos e confirmados na história em casos brutais como Palmares, Haiti, Revolução Francesa, Tiradentes, Canudos e Cangaço. Ocorre que cortar cabeças dos adversários também tem outras serventias a julgar pelos métodos de Floriano Peixoto e seu cortador de cabeças oficial, o comandante Moreira César.

Floriano esteve envolvido no golpe da república – naquela época o eufemismo utilizado era “proclamação”. O golpe da “proclamação” deu-se em 1889 basicamente por descontentamento dos latifundiários – o nome não era “agronegócio” ainda – em face da lei abolicionista em favor dos escravos (1888), vítimas da maior e pior estrutura de segregação da história da humanidade – mesmo que o presidente da fundação Palmares insista em ignorar.

Ora, depois da tal “proclamação”, o combinado seria que Deodoro da Fonseca assumira o comando da “república” somente até os trabalhos conclusivos da constituinte e, posteriormente, tudo ajustado para o civil Prudente de Morais assumir a ”presidência” (assim mesmo, sem voto popular, sem nada). 

Ocorre que Deodoro ficou entusiasmado e decidiu fechar o Congresso Nacional em novembro de 1891, mas um (outro) golpe dentro do golpe não agradou ninguém e até a marinha (naquela época falava-se “armada”) rebelou-se, ameaçando bombardear o Rio de Janeiro (naquela época era a capital da “república”). Por conta disso, Deodoro perdeu o entusiasmo e, conchavos feitos, o “vice-presidente” Floriano Peixoto assumiu o poder no dia 23 daquele mês.

Entretanto, o fato não acabou por aí e gerou consequências graves no sul do país, principalmente lá nos pampas do Rio Grande, onde o partido republicano (Júlio de Castilhos, “chimango”, lenço branco) apoiava o poder centralizado de Floriano. Por outro lado, o partido federalista (Gaspar Martins, “maragato”, lenço vermelho) era oposição a Floriano e pleiteava um poder descentralizado e pensado desde um parlamentarismo até ao federalismo nos moldes americanos.

A guerra civil foi inevitável, principalmente quando alguns militares da armada se aliaram aos federalistas. Não bastasse, houve até apoio de armas vindas do Uruguai e de hermanos do outro lado do rio da Plata. Parecia que ia surgir uma outra república nos (dos) Pampas envolvendo Rio Grande do Sul, Paraná e Santa Catarina ao ponto da ilha do Desterro (na época era o nome da capital de Santa Catarina) ter sido proclamada “capital” desta “nova república” – já entre batalhas – em 1893.

Foi aí que Floriano chamou seu “cortador de cabeças”, o comandante Moreira César – como foi dito, cortar cabeças significa aniquilar definitivamente o inimigo – e para lá foi ele com sua tropa e sua fúria (...). Foi uma carnificina.

Floriano havia autorizado massacres, fuzilamentos, prisões e exílios. Ao fim dos combates e na tal “capital” Desterro o próprio Moreira César humilhou, torturou e organizou o fuzilamento de 185 rebeldes lá mesmo, sem processo, sem juiz, sem condenação. Por fim, cerca de 10 mil pessoas morreram neste conflito e mais de mil cabeças foram cortadas “para economizar munição”, mas a suprema humilhação ainda estava por vir.

E veio logo em seguida com Desterro, a capital derrotada, sendo rebatizada de FLORIANÓPOLIS naquele mesmo ano de 1894, para que seu carrasco nunca fosse esquecido (!). Não houve reação, mesmo porque Floriano (ainda) continuava no poder. O nome-homenagem-humilhação persiste até hoje, mas lá não tem avenidas, escolas ou praças com esse nome: Floriano. Afinal, não se consegue cortar a cabeça da história.

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