BRILHO QUE TE QUERO

A inspiração vem de Guy de Maupassant (1850 -1893) e a história que se segue trata de (era uma vez) uma linda jovem, seguramente muito linda mesmo. Era tão inegável sua beleza que se expandia por todos os lugares onde estivesse. Transbordava mesmo no ambiente.

Claro que o ambiente era pequeno, uma casa pequena de uma cidade pequena, mas grandes eram os pensamentos dela, seguramente bem maiores e, por isso, sentia-se apertada e desajustada em seu meio, em seu habitat. Algo lhe dizia que seu destino havia cometido um equívoco ao mantê-la ali. Ali não era seu lugar, afinal era bela o suficiente para desfrutar de centros mais condizentes com suas aspirações e reconhecida estampa.

Ocorre que nova agência bancária é inaugurada na cidade. A primeira e única até então e os festejos da inauguração encheram o estabelecimento com os mais prestigiados moradores da cidade. O pai dela foi um dos convidados já a agência receberia de bom alvitre as contas de sua mercearia e, claro, ela também estava lá.

Conheceu o gerente. Moço bom e simpático. A família fez muito gosto no relacionamento e o casamento acabou acontecendo. Feliz? Não. Ainda assim ela se sentia inconformada com a pequena cidade. Achava que merecia algo mais adequado à sua aflitiva alma.

Eis que o gerente é convidado – veio direto da matriz – para um baile comemorativo na capital. O convite chegou com diversos laços e ela o abriu com o coração tripulando. Finalmente estaria num ambiente digno dela, de sua beleza, de seu jeito metropolitano e de sua verve sofisticada.

O marido ajudou com o vestido para vê-la feliz, ainda que tenha comprometido o décimo terceiro salário, bem como cuidou da reserva de quarto em hotel próximo ao evento. Realmente ela ficou radiante, mas lembrou-se que não tinha joia alguma e era necessário para combinar com sua elevada estirpe. Lembrou-se de uma amiga do ginásio – esta sim, bem afortunada – e correu até a casa dela.

Foi recebida aos abraços. Eram muito queridas e a amiga não hesitou. “Escolha!” Disse mesmo com grande sinceridade e ela se deixou tontear por um brilhante colar. Tinha que ser ele! A amiga o emprestou de bom grado e ela o levou com incontida emoção, mediante desnecessária promessa de entrega tão logo retornasse da festa.

Ora, e a festa... Que festa! Que baile! Ela dançou, sorriu e reconheceu que finalmente estava em um ambiente digno dela. Jamais havia ficado tão feliz na vida. Brilhou mais que o colar em seu pescoço. O marido estava igualmente feliz por tê-la proporcionado tamanha felicidade. Era um moço bom!

Ao término, tomaram um táxi rumo ao hotel. Felizes e mais apaixonados, adentraram ao quarto. Foi quando ela, ao deslizar a mão pelo pescoço, deu pela falta do colar. Fora perdido! Encheu-se de desespero. Toda a procura restou em vão. Localizaram o táxi, andaram pela rua, pelo clube e nada.

Não restou alternativa. Tiveram que comprar outro e não sabiam que era tão caro, a peça mais valiosa da joalheria. Foram muitas prestações que lhes tomaram anos de pagamento. O marido pediu diversos empréstimos e ficou na mão dos piores agiotas. Ela deixou a vaidade de lado, assumiu tarefas domésticas diversificadas e, em tudo, economizava. Tornou-se rude e ainda mais desiludida. Alguns cabelos brancos despontaram e lhe trouxeram também rugas precoces. A vida lhe era amarga e vivê-la muito mais.

Depois de duros anos, eis que se encontra com sua amiga em via pública. Obra do acaso. Cumprimentam-se e a conversa chega ao colar. Ela conta à amiga o corrido, que havia perdido o colar, que comprou outro e o devolveu sem que a amiga percebesse a troca. Disse também dos sacrifícios pelos quais passou, das humilhações e dos desgastes para poder pagar aquela joia tão cara.

“Jóia?”, perguntou a amiga. “Minha querida, venha cá, abraça-me! Por que não me perguntastes? Por que não me contastes tudo? Aquilo que lhe emprestei não passava de uma simples bijuteria! (...)”

Moral da história: o mundo é uma bijuteria, nele há pessoas bijuteria, relações bijuteria, governos bijuteria e tudo cobrado muito caro em valores e sentimentos verdadeiros. Enquanto isso, vidas de diamante se vão e se perdem, por muito pouco e quase nada.

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