Biblioteca Pública não é gasto: é investimento social

Por Márcio Almeida Jr.

Em sua estreia como articulista do Agora, no qual vai colaborar regularmente com textos e análises em vídeo sobre temas de interesse público para Divinópolis, o professor, jornalista e analista político Márcio Almeida Jr. discute o movimento formado nos últimos dias a favor da manutenção da biblioteca municipal em sua atual sede, de onde a Prefeitura deseja retirá-la em uma iniciativa cujos detalhes ainda não estão claros para a sociedade divinopolitana

O prefeito Gleidson Azevedo (PSC) fará um grande feito se entrar em campo para defender o time de amigos e amigas da Biblioteca Pública Municipal Ataliba Lago. Está em curso, sob a condução da vice-prefeita Janete Aparecida (mesmo partido), uma jogada que pretende transferir a sede da instituição para outro imóvel sem que tenham ficado claros, até agora, os motivos da transferência e as garantias de que o acervo bibliográfico, um dos melhores do interior de Minas, terá condições adequadas de continuar prestando os bons serviços que a sociedade divinopolitana merece.

Perguntado na última quinta-feira pelo Agora sobre a possibilidade da mudança de sede e suas razões, o setor de comunicação da Prefeitura terminou o expediente semanal, na sexta-feira, sem dar resposta. Extraoficialmente, o que se sabe é que a primeira ofensiva tática pela transferência da sede foi feita por Janete durante recente reunião na biblioteca. Na ocasião, ela comunicou aos servidores adecisão de mudança e acrescentou que está sendo considerada pela administração a possibilidade de o acervo ser transferido para um prédio vizinho à linha férrea do Esplanada, onde já funcionou um buffet.

Enquanto a vice-prefeita toca a bola para tirar a biblioteca da sede em que ela se encontra há muito tempo, vai se formando na sociedade divinopolitana uma torcida contra essa jogada. Nela estão desde autoridades como a vereadora Lohanna França, que em seu Twitter se disse apreensiva com a falta de informações a respeito do projeto, até o editor e agente cultural Daniel Bicalho, que se manifestou pelo Facebook, passando por diversos frequentadores da instituição que têm opinado em redes sociais. Diferentes em perfil, os manifestantes têm em comum o repúdio à ideia.

Antes que Janete faça um gol contra as expectativas destas pessoas, seria conveniente que Gleidson se dispusesse a ouvir as arquibancadas. Se o fizer, o prefeito descobrirá que as apreensões vão muito além de motivos sentimentais em relação à atual sede do acervo bibliográfico. Em primeiro lugar, bibliotecas públicas, como seu nome indica, são do povo. Assim, em homenagem à democracia, seria bom perguntar ao cidadão e à cidadã o que eles pensam da mudança de sede. Em homenagem à transparência, seria bom explicar o projeto de mudança ou, pelo menos, mostrar aos contribuintes que há garantias para o acervo.

E que garantias seriam essas? Qualquer frequentador da Ataliba Lago sabe apontá-las. Partindo-se do pressuposto de que bibliotecas públicas não são um depósito de publicações e sim um instrumento de fomento à cultura, à educação e ao lazer e, por conseguinte, um valiosíssimo instrumento das políticas públicas nestas três áreas, conclui-se facilmente que elas precisam, do ponto de vista de sua estrutura física, de quatro características: centralidade (estar no coração da cidade), frontalidade (estar à vista e não em dependências de fundos ou andares superiores), acessibilidade (ser de fácil acesso a pedestres, inclusive os que têm necessidade especial de locomoção) e, naturalmente, disponibilidade para o acervo atual e reserva de espaço para o seu crescimento planejado.

Justamente por serem instrumentos de políticas públicas de incontestável relevância social, sobretudo para a infância e a adolescência, a biblioteca não deveria entrar na lógica de custos que se podem economizar. Ela não está, por exemplo, no campo dos carros de alto padrão que o prefeito, de modo louvável, dispensou em nome da economia. A biblioteca está, mais propriamente, no campo das unidades básicas de saúde que fazem algo essencial pela qualidade de vida de seus usuários. Sua lógica, como a dessas unidades, não é a da contenção de custos: é a do investimento em busca da excelência. Não se trata, com elas, de economizar, alojando-as fora do centro e ao lado de uma ruidosa linha de trem, e sim de investir.

Pode-se concordar ou discordar de Gleidson, mas não é justo afirmar, pelo que se viu até agora de seu ainda curto governo, que o mando lhe subiu à cabeça ou que ele o exerça pelo simples gosto de mostrar que manda. Pelo contrário: sua postura, como ele mesmo a define, tem sido a de um “funcionário do povo”. Nessa humildade, demonstrada desde 1º de janeiro, encontra-se, por certo, sua maior virtude. Gleidson, afinal, não esconde ser e agir como uma pessoa simples. E isso, junto com a disposição de conversar com o povo, é um de seus inquestionáveis trunfos.

Não há, pois, motivos para que o prefeito não possa ouvir a voz das ruas antes de dar a canetada final a respeito da transferência da biblioteca de um local em que os usuários estão, há muito tempo, acostumados a frequentá-la. Para o time de amigos da cultura, será uma grande jogada. Para Janete Aparecida, que hoje aparece na mídia local tomando medidas que vão da resolução de problemas funerários à articulação política com vereadores, prejuízo algum decorrerá. Afinal, se o prefeito decidir desta vez ouvir a si mesmo e às ruas, isso em nada prejudicará a glória e o esplendor do poder que a vice-prefeita exerce hoje em todos e em cada um dos quadrantes da Administração Municipal.

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