Beauvoir, Camus e Ofélia

Raimundo Bechelaine

Num dos seus poemas, Adélia filosofa mais ou menos assim: “Minha mãe achava que o estudo é a coisa mais fina do mundo. Mas não é. A coisa mais fina é o sentimento”. 

Porém nem sempre. A ignorância tende a agir pelo sentimento, nele incluídos os preconceitos, paixões e emoções. É a razão que nos torna homens; e a inteligência tende a agir pela razão, que é melhor conselheira.

Ontem, pela manhã, deu-se uma cena ilustrativa. Um senhor digamos que se chame Cláudio estava no portão de sua casa. Passava, de carro, um amigo, o qual estacionou a certa distância, quase no meio da rua deserta. Sem sair do veículo, cumprimentou: “Então, como vai o confinamento?”. Cláudio saiu do portão e chegou, não muito próximo. Começaram a conversar. Esbaforida, apareceu Ofélia, a mulher de Cláudio. Sem ao menos dizer “bom dia” ao amigo da família, puxava pelo braço ao marido, gritando: “Vem pra dentro, não pode sair na rua!”. Os dois não lhe deram atenção e ela retornou à casa, resmungando. 

Como a conversa dos amigos se estendesse por mais um minuto, Ofélia reapareceu e novamente arrastava o marido. Talvez pense que o vírus cai do céu em flocos, mas não lhe ocorreu trazer ao marido um guarda-chuva. Em tempos de pandemia, o sentimento toma a dianteira.

Aliás, epidemia e pandemia são termos elegantes que estamos usando para as pestes ou pragas, como a que agora se alastra pelo mundo. Muitas já se abateram sobre a humanidade. As medievais são famosas, como as pestes bubônica e negra, que mataram milhões de pessoas.

Em países ignorantes, como o Brasil e os Estados Unidos, mulheres em pânico arrastam seus homens para o refúgio doméstico. Na Europa de Descartes e Heidegger, corre-se às livrarias. Lá, a obra de um filósofo argelino-francês esgota-se nas prateleiras. Albert Camus publicou “A Peste” em 1947. O personagem central é o médico Bernard Rieux. Em Oran, cidade fictícia na Argélia, uma peste aterroriza. Neste contexto, o filósofo discute temas ligados à condição humana, entre estes a morte.

Um ano antes, outro livro já unia a ficção e a reflexão filosófica sobre a condição humana: “Todos os homens são mortais”, de Simone de Beauvoir. Também aí aparece o tema da peste e da morte. Na Itália, a cidade fictícia de Carmona é devastada pela praga, que mata inclusive a família do protagonista. Eis uma cena: “Não sobrava lugar para onde fugir. Um monge pregava: Conde Fosca, compreendes agora? (...) Deus mandou a peste e a peste venceu-te. ― Isto prova que é preciso aprender a vencer também a peste, disse eu”.

Embora morram alguns milhares, venceremos o Covid-19, dizem a razão e a ciência do século 21. Acalme-se, Ofélia. jorababech@gmail.com

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