Arma nas mãos

O Indicador de Analfabetismo Funcional (Inaf) mostra que três entre cada dez brasileiros têm limitação para ler, interpretar textos, identificar ironia e fazer operações matemáticas em situações da vida cotidiana. Em outras palavras, são analfabetos funcionais. Sabem ler, escrever, mas não sabem interpretar. Esse dado fica mais assustador quando interligado às redes sociais, o mundo das fake news. Segundo o Inaf, mesmo com essas dificuldades, os analfabetos funcionais são usuários frequentes das redes sociais, sendo que 86% utilizam Whatsapp, 72% têm conta no Facebook e 31% estão no Instagram.

Talvez esta seja uma das possíveis explicações para a onda de fake news, que chegou com força nas eleições o ano passado e insiste em permanecer. Milhões de analfabetos funcionais estão aí nas redes sociais, acreditando em tudo o que é falado, no que é postado, sem se darem o trabalho de confirmar se a notícia é verdadeira, ou não. E, de opiniões alheias, que muitas vezes não têm nenhum fundamento, eles tiram suas próprias conclusões e saem por aí espalhando ignorância.

Em 2017, a equipe do programa “Que mundo é esse” produziu o documentário “Fake news: Baseado em fatos reais”. A jornada passou por Estados Unidos, Rússia e Inglaterra, e conheceu também um dos “Veles Boys”, jovens locais que construíram sites com notícias falsas populares nos EUA durante a disputa entre Donald Trump e Hillary Clinton. Em uma entrevista, um jovem de 19 anos disse que haviam tentado enganar os eleitores de Hillary e Bernie Sanders, porém com eles “não funcionou”, pois “atraíam pessoas com pensamentos mais críticos”. Segundo o jovem, os apoiadores de Trump seriam mais “estúpidos”, pois eles “acreditavam em tudo”.

Uma das conclusões que a equipe tirou no documentário é que as fake news sempre existiram, mas hoje se tornaram arma na mão de políticos. Mas nós vamos um pouco mais longe, as fake news conseguem causar danos à coletividade, muitas vezes irreparáveis. Tudo isso já era previsto por Umberto Eco, quando ele disse que “as redes sociais deram voz a legião de imbecis que antes falavam apenas em um bar e depois de uma taça de vinho, sem prejudicar a coletividade”. Isso é triste e verdadeiro. Pois, além de prejudicarem a coletividade, essa legião não sabe lidar com outras opiniões. Mesmo causando danos, a que permanece é a deles.

Um exemplo foram as redes sociais tomadas na noite desta terça-feira, 29, pela notícia de que o suspeito de participar do assassinato da vereadora Marielle Franco, no Rio de Janeiro, teria ido ao condomínio do presidente Jair Bolsonaro (PSL) horas antes do homicídio. Logo após a notícia, uma legião já começou a atacar quem divergia de sua opinião, a vereadora, que nem conheciam, e a tirar conclusões precipitadas, mostrando, mais uma vez, que nem Jesus tem poder nesta causa. Nem tiveram o cuidado de pesquisar se o presidente, à época deputado, estava em casa ou se a visita era mesmo para ele. A esta hora, já havia informações de que ele estava em Brasília e que se tinha certeza da fala do porteiro. Tanto que, ontem à tarde, quando este editorial era finalizado, a acusação já tinha sido arquivada. Que esta invasão avassaladora está perdida, e que infelizmente os “usuários sem noção” continuarão causando danos à coletividade por um longo tempo, não se tem dúvidas. Mas, boa parte da culpa, mais uma vez, vai sobrar para o jornalismo.

 

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