Aos sobreviventes

Alguém vai dizer que eles envelheceram, não está errado! O tempo fez seu papel! Quando olham para trás, não têm como não pensar no velho clichê “parece que foi ontem”! O fato é que faz tempo que chegaram à vida um do outro. Passou rápido demais? Não, tudo aconteceu no seu devido tempo. Tudo aconteceu como tinha que acontecer. Eles é que, de tão ocupados, não viram os dias acontecerem. Escreveram a própria história sem se darem conta disso. Sem parar para respirar entre um capítulo e outro. Sem rascunho e sem edição.

Foram-se os outonos, vieram os filhos. Foram-se as primaveras, vieram as nossas conquistas. Foram-se os invernos vieram as dificuldades. E em todos eles enfrentaram juntos as alegrias e tristezas de quem se propõe a formar uma família.

Porém, como são pessoas e por isso mesmo ímpares, com particulares e singulares em suas formas de ver e viver a vida, cada um evolui de um jeito, tem seu tempo de maturação, de resposta para as perguntas que a vida nos apresenta. E assim sendo, mesmo caminhando lado a lado, dormindo na mesma cama, compartilhando o mesmo teto, a mesma TV e os mesmos filhos, tomaram rumos diferentes. Amadureceram de forma diferente, evoluíram em aspectos diferentes, envelheceram diferentes. E, quando perceberam, não trilhavam mais a mesma estrada. Tudo acontece tão naturalmente que não há o que dizer, não há o que explicar. São só constatações.

Em alguma coisa, um vai deixar o outro triste; em alguma outra coisa, o outro vai se sentir só. Neste momento, as intenções se separam, os sonhos se distanciam e as respostas cada vez mais não correspondem às expectativas um do outro. São os sobreviventes da convivência, agarrados às velhas rotinas como cordas na montanha. Cachorros, plantas, netos e supermercados ocupam os espaços vazios de uma casa cheia de perguntas sem respostas. E, quando houver silêncio, cada um liga a sua TV e está tudo certo.

Não era para ser assim. Eles mereceriam mais que isso! O tempo de usufruir foi sucumbido pelo tempo de zelar. Ela ainda sabe dançar! Ele ainda acha lindo quando ela dança! Nem tudo está perdido!

Eu torço de verdade para que eles se encontrem de novo. Quem sabe, naquela casa enorme, um dia se esbarrem, percebam um ao outro e voltem a escrever a velha história com o final que merecem!


leila@leilarodrigues.com.br


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