Ao trabalho

Leila Rodrigues 

Ao trabalho 

Ainda que eu não tenha para onde ir, mantenho o despertador tocando todos os dias às 5h50. Você pode achar que é  insanidade da minha parte, mas eu posso explicar. 

Foram 25 anos acordando neste mesmo horário. Existe um ritual que acontece depois dele. Um ritual que foi e será a minha pílula estimulante para o resto do dia. 

Eu acordo, faço minha higiene matinal, coloco a água do café para ferver e enquanto isso vou ver os meus cães Sulfato e Dorinha. Um dia explico por que ele se chama Sulfato. 

Tomo meu café na janela, observando a cidade. Enquanto absorvo meus goles de café quentinho, faço minha singela oração. Depois sigo em frente, suficientemente alimentado de boas energias para o meu dia. 

Eu sei, não estou mais trabalhando há mais de seis meses. E, pode acreditar, eu também ainda não enlouqueci. Aposentei meu uniforme e minha pasta, que também já estava bem velhinha, mas o meu ritual da manhã eu fiz questão de manter. 

E, no Dia do Trabalhador, sábado, 1º, eu o fiz do mesmo jeito. Sabe por quê? Eu ainda sou um trabalhador. Só não tenho um emprego e nem sou remunerado. Mas continuo trabalhando. Trabalho dentro da minha casa, pesquisando e estudando  para me aprimorar e voltar ainda melhor ao mercado de trabalho. Trabalho para equilibrar as minhas contas com o pouco dinheiro que ainda me resta, trabalho para não enlouquecer quando penso no amanhã e trabalho à procura de emprego. Então, mediante o trabalho acima citado, eu sou, sim, um trabalhador. E este dia é meu também de fato e de direito. 

Conheço muita gente que tem um bom emprego e não é um trabalhador. Conheço pessoas que trabalham duro por uma causa e não recebem dinheiro algum por isso. Conheço trabalhadores que acordam muito cedo e conheço trabalhadores que vão dormir pela manhã. 

Igual a mim, sem nenhuma remuneração, tem uma multidão. Somos milhares, milhões, especialmente neste momento em que a máquina parou para preservar a espécie humana. 

Às vezes penso que estou velho demais para começar. Outras vezes penso que, com tanta gente na fila, vai ser muito difícil eu ser escolhido. Mas daí eu penso que igual a mim, com a minha disposição, meus conhecimentos e valores, só eu. 

Então acordo cedo, faço meu ritual de sempre e vou trabalhar. Com a certeza de que o meu lugar está vazio à minha espera, em algum lugar!

leila.palavras@gmail.com

 

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