Analfabetismo nas redes

Editorial

Eduardo Szklarz e Bruno Garattoni escreveram um artigo em 2018 chamado “A era da burrice”. O texto, publicado pela revista Superinteressante, é mais atual do que nunca. Os autores são cirúrgicos em suas palavras e conseguem definir muito bem o sentimento que acompanha parte da população até hoje. Eduardo e Bruno dizem: “Discussões inúteis, intermináveis, agressivas. Gente defendendo as maiores asneiras e se orgulhando disso. Pessoas perseguindo e ameaçando as outras. Um tsunami infinito de informações falsas. Reuniões, projetos, esforços que dão em nada. Decisões erradas. Líderes políticos imbecis”. O que mais impressiona é que o artigo foi escrito em 2018, mas essas situações seguem a todo vapor e até pioraram, dando a sensação que a humanidade não conseguirá romper esta barreira.

Ontem, por exemplo, uma discussão acerca de um carro da Prefeitura estacionado em um shopping de Belo Horizonte tomou conta das redes sociais. Em um post publicado no Facebook, uma pessoa questionava – com a foto do carro embaixo – “O que o carro oficial da Prefeitura de Divinópolis está fazendo no BH shopping na terça-feira, dia 2 de fevereiro, às 15:15. Alguém pode me dizer?”. O questionamento nada mais é do que justo, afinal, o que um carro oficial do Executivo estava fazendo em um shopping? Afinal, o povo tem todo o direito de saber, visto que é ele que pagou o carro e arca com o salário de quem está usando-o. Já do lado da imprensa, como determina o artigo quarto do Código de Ética dos Jornalistas Brasileiros: “O compromisso fundamental do jornalista é com a verdade no relato dos fatos, razão pela qual ele deve pautar seu trabalho pela precisa apuração e pela sua correta divulgação”. Nós fomos apurar o fato, que era, no mínimo, motivo de indagações. A Prefeitura deu a sua justificativa e bastou a matéria ser publicada com o esclarecimento, para que as pessoas simplesmente começassem o seu linchamento virtual. 

Incapazes de entender que aquilo se tratava apenas de um ESCLARECIMENTO, e não de um posicionamento, alguns internautas foram além e afirmaram que “desde que os jornalistas não precisam de graduação para atuar como profissional a imprensa virou esse lixo”. O comentário  foi infeliz e estarrecedor, pois mostra mais uma vez que boa parte da população é incapaz de interpretar ou entender algo simples, como um esclarecimento. O inciso segundo do artigo sexto do Código de Ética estabelece que é dever do jornalista “divulgar os fatos e as informações de interesse público”, mas parece que na “era da burrice” o que é aceitável pela população são apenas notícias que falem bem do seu candidato. A verdade, independente de político ou de partido, já não importa mais. A imprensa só é boa quando traz a público notícias que interessam grupo X ou Y, passou disso é definida como “lixo”. 

O grande pesar de tudo isso é constatar que talvez cheguemos a 2022, 2023, 2024 e a era da burrice continue tão atual como quando começou. O grande pesar é constatar que a frase de William Randolph Hearst, “Jornalismo é publicar aquilo que alguém não quer que se publique. Todo o resto é publicidade”, apesar de ser a única que define o jornalismo em sua essência, ainda está longe de ser aceita na prática e que, com isso, estamos fadados a conviver com analfabetismo funcional por um longo tempo.

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