Acúmulo de cirurgias eletivas é preocupação entre vereadores

Segundo relatório lido nos discursos, pacientes já aguardam, em casa, por seis meses para realizar procedimentos

Matheus Augusto

Um tema dominou os pronunciamentos dos vereadores na Câmara na última reunião: a crescente fila de espera por cirurgias eletivas em Divinópolis. Nos pronunciamentos, a decisão do Estado em suspender os procedimentos para aumentar a disponibilidade de leitos foi criticada pelos edis, que temem a piora do quadro de saúde dos pacientes. Outro fator agravante é que, com o acúmulo na lista, quando as cirurgias forem retomadas, não haverá recursos suficientes para atender todos, sendo necessário ampliar ainda mais a espera.

Legislativo

Primeiro a discursar, Israel da Farmácia (PDT) foi também o primeiro a abordar o tema.

— É um absurdo o que está acontecendo com nossos doentes — comentou.

Segundo ele, 107 pessoas aguardam em casa por cirurgia. 

— Gostaria de saber de quem é essa culpa, que explicassem o porquê dessa demora — cobrou.

— Tem pacientes há 36 dias na UPA aguardando cirurgia. isso é desumano, não pode acontecer

Ele ainda detalhou casos, como o de um senhor, de 64 anos, com tornozelo e tíbia quebrados, que há 16 dias espera por um procedimento.

— A pandemia existe, mas a dor também existe — defendeu.

Para Israel, é preciso buscar uma solução, pois, do jeito que está, “não pode”.

Dias sem fim

Para os pacientes, a pandemia não tem sido dentro de Casa, mas na UPA. “36 dias, 30, 17 dias…”, comentou Ademir Silva (MDB) sobre o tempo que 19 pacientes na UPA estão à espera de uma vaga hospitalar. Segundo ele, outros 31 pacientes estão no Bento Menni, o “puxadinho da UPA”. “26, 20, 52 dias de espera”, exclamou. 

O parlamentar, membro da Comissão de Direitos Humanos, visitou a unidade nesta semana.

— Ficamos muito preocupados com o que tem acontecido no setor de ortopedia — relatou.

Ademir vê, nessa situação, mais um problema para a saúde.

— As primeiras 24h que a pessoa fica na UPA é tripartite [custeado por União, Estado e Município]. Quando passa desse período, é de responsabilidade do nosso Município — destacou.

O cenário, porém, não se restringe à porta de pronto atendimento. O edil ainda citou que há enfermos em casa aguardando há seis meses por um procedimento ortopédico. “Estamos no caos na Saúde”, afirmou.

— 183 dias esperados, seis meses! Tem gente com 175, 188, 190 dias aguardando uma operação ortopédica — leu o relatório.

Silva citou também a preocupação de natureza socioeconômica das pessoas que aguardam, em casa, pelas cirurgias.

— Será que essas pessoas que estão precisando da cirurgia conseguiram receber seu auxílio? Será que eles estão precisando de ajuda? Será que o Estado vai continuar protelando as cirurgias eletivas? — questionou, destacando que muitos precisam de realizar o procedimento para voltarem a trabalhar.

A consequência, prevê o parlamentar, é uma bola de neve.

— Vamos ter tantas cirurgias eletivas no fim da pandemia que teremos uma nova pandemia — ressaltou.

Futuro incerto

Presidente da comissão de Saúde, Zé Braz (PV) compartilhou da preocupação de Ademir com o futuro dos  995 pacientes que estão na fila para uma cirurgia eletiva.

— Posteriormente elas vão se tornar de emergência e urgência se não forem realizadas no tempo hábil — declarou.

O edil destacou ainda que o Município está de mãos atadas, pois o credenciamento depende do Estado, mas sugeriu ao Executivo local “buscar alternativas” para evitar o agravamento do estado de saúde dos pacientes. 

A sugestão também foi feita por Rodyson do Zé Milton, companheiro de partido, para garantir que os pacientes não fiquem na UPA em vez de serem transferidos para outra unidade adequada de tratamento.

— Não temos vagas suficientes pelo SUS. Precisamos criar vagas para que esses pacientes sejam encaminhados. Eles ficam na UPA porque não têm para onde serem encaminhados — destacou.

Ele recomendou, por exemplo, a possibilidade de o Executivo investir o dinheiro gasto em judicialização para aluguel de leitos na contratação de uma empresa para “desafogar a rede”, destacando a necessidade de aprofundar o assunto.

Na pele

Em seu discurso, Diego Espino (PSL) também comentou sobre o assunto por sua própria experiência.

— Eu tive um acidente de patinete elétrico e não tinha plano de saúde. Eu fiquei esperando cirurgia por três semanas [com fratura no ombro]. O meu braço não mexe mais devido à espera por cirurgia pelo SUS — relatou. 

De acordo com o parlamentar, há relatos em que a rede de saúde pede até 60 dias para entrar em contato sobre a cirurgia. 

— Todos nós somos pagantes. Pagamos muito imposto — citou.

Determinação

As cirurgias eletivas foram suspensas em 16 de fevereiro deste ano, inicialmente por 15 dias, podendo o prazo ser prorrogado conforme o cenário da pandemia do estado. O intuito, conforme anunciado, é "minimizar a sobrecarga no sistema de saúde para o atendimento de pacientes com covid-19".



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